Realizado por Abbas Kiarostami
Critica
“10 on Ten” é, como o próprio nome indica, um meta-filme. Um documentário do célebre realizador iraniano Abbas Kiarostami sobre a concepção do seu último trabalho, “Ten”. Se não se tivesse dado o caso deste filme ter sido seleccionado para a secção “A Certain Regard” do Festival de Cannes, muito provavelmente só os mais entusiastas da filmografia do autor teriam dado por este objecto, inicialmente previsto para simplesmente constar como um extra do DVD de “Ten”.
Kiarostami recorre ao seu cenário de culto, um automóvel (foi no interior de outro que filmou “Ten” integralmente), para nos levar por uma viagem pelo sua assinatura muito particular de mise-en-scéne. São 10 as lições de Kiarostami: Introdução, A Câmara, O Tema, O Cenário, Repérages – procura e selecção prévia dos locais onde decorrerão as filmagens, a música, o actor, os acessórios – como o guarda-roupa, o realizador, e a última lição.
A perspectiva de “10 on Ten” é tão académica que o autor chega mesmo a dirigir-se por diversas vezes ao espectador como um “estudante de cinema”. Sendo assim, não é de estranhar que após alguns minutos de projecção já diversas pessoas tivessem abandonado a sala. É que para ouvir o mestre há que ter algum estoicismo. Durante cerca de 80 minutos, somos convidados a uma viagem pelos mesmos trilhos percorridos em “O Sabor da Cereja”, sempre dentro do carro, sempre com a câmara apontada a Kiarostami. As poucas excepções decorrem de “ilustrações” do método do iraniano sobre as suas próprias palavras. Por exemplo, no capítulo da música, somos confrontados com a dissociação entre imagem e som de um mesmo excerto de “Ten”. A ideia do realizador foi explicitar com clareza que a linguagem nem sempre é sinónimo de um bom filme. Neste ponto, Kiarostami critica as dobragens, e até mesmo a legendagem dos filmes estrangeiros em qualquer país, dando como exemplo um caso bastante caricatural. Quando se encontrava em Paris, há muitos anos, viu um filme sueco legendado em francês. Mas como não percebia nenhuma das línguas, decidiu rever o filme na sessão seguinte para tentar entender melhor o enredo. A verdade é que anos mais tarde, quando reviu o mesmo filme com uma legendagem que compreendia, verificou que afinal a história era algo diferente da que ele conjecturara tempos antes. E mais. Que a sua interpretação dos acontecimentos lhe agradara mais que a verdadeira! A realidade é que, apesar deste aspecto, não deixa de ser irónico que este filme esteja a ser projectado no Indie-Lisboa 2004 (duvido que chegue comercialmente às salas) com uma dobragem inglesa extremamente coloquial, a fazer recordar os documentários mais “reles” dos canais de televisão por cabo.
Abbas Kiarostami é um purista do cinema. Tão purista, que o seu trabalho assenta em obras de “auteur” sem actores profissionais, onde impera a mais pragmática espontaneidade e o recurso a uma equipa minimal, com guiões de três folhas em constante mutação, para filmes já de si extremamente minimais nos seus recursos técnicos (o conteúdo, esse, é outra história). Não é portanto de estranhar que o iraniano se atire de garras abertas ao “status quo” instituído na nossa cultura pelo cinema de Hollywood. O problema é que Kiarostami por vezes confunde todo o cinema americano com o dos grandes estúdios, ou pelo menos não se esforça muito por dividir as milhentas vertentes que existem nos Estados Unidos de “outro” cinema (será que já viu, por exemplo, “Gerry”, de Gus Van Sant ?).
Mas também o seu país não escapa à crítica. Kiarostami aponta o exemplo do governo fundamentalista do Irão como utilizador da própria “ferramenta cinéfila americana”. Tivemos recentemente um caso sui generis: a exibição sem qualquer censura de “Fahrenheit 9/11”. Em boa verdade, “10 on Ten” é delicioso nos aspectos filosóficos e no modo de encarar a profissão que Kiasrostami tão bem consegue transpor com as suas palavras. Mas daí a chegarmos a um consenso, o caminho é tortuoso, como o de “O Sabor da Cereja”. 7/10 Nuno Centeio