«Van Helsing» por Carlos Natálio

(Fotos: Divulgação)

  Sinopse

A película, realizada por Stephen Sommers (The Mummy), tem Hackman no papel do lendário Dr. Van Helsing, o homem que vai lutar contra Frankenstein, The Wolf Man e Drácula. Beckinsale será Anna, uma jovem mulher que dedica a sua vida a um único objectivo: destruír Drácula.

Elenco

Hugh Jackman, Kate Beckinsale, Richard Roxburgh, David Wenham, Shuler Hensley, Will Kemp, Kevin J. O’Connor, Elena Anaya, Silvia Colloca, Josie Maran, Sam West

Realizado por Stephen Sommers

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Crítica

Stephen Sommers, com a construção de “The Mummy” e “The Mummy Returns”, criou um estilo seu no domínio do filme de acção fantástico. Filmes de aventuras com efeitos especiais a desempenhar um papel de charneira (diria mesmo a roubar o lugar dos actores), um divertimento descomprometido e uma completa devoção aos clássicos de série B. Por isso pôs-se na posição ideal para ser o realizador escolhido pela Universal para dirigir um projecto de revivalismo e homenagem dos seus principais heróis dos anos 30 e 40: Frankenstein, Dracula ou The Wolf Man.

O início de “Van Helsing” marca precisamente essa coordenada numa sequência a preto e branco recriando um dos episódios mais famosos da “The Bride of Frankenteisn” de 1935, no qual a população enfurecida armada com tochas e forquilhas se junta e incendeia o velho moinho onde se tinha refugiado Frankenstein, manifestando a sua raiva sob um céu carregado e tempestuoso.
Depois do fracasso de “The Hulk” de Ang Lee, a Universal aposta muito numa obra onde Van Helsing (Hugh Jackman), recuperado do romance “Dracula” de Bram Stoker (no qual era originalmente um professor especializado em doenças exóticas), é agora um “holly assassin”, que não se lembra do seu passado e que está condenado a perseguir, sem perceber muito bem porquê, as forças do mal.
Depois de caçar o monstro da Paramount – Mr. Hide (numa bela sequência de acção em plena Nôtredame; este episódio será mais explorado numa animação com voz de Jackman a sair em DVD depois do filme), Helsing tem de ir à Transilvânia, a mando de uma secreta organização religiosa, com o objectivo de aniquilar o lendário Dracula. É aí que se junta a Anne Valerious (Kate Beckinsale), jovem guerreira e único membro restante de uma família aristocrata cuja missão tem sido ao longo de séculos tentar pôr termo à vida do conde que aterroriza as populações locais.
O filme tem por ideia chave um “celebrity death match” entre as vários monstros uma vez que os maléficos planos de Dracula (Richard Rowburgh) envolvem a utilização de Frankenstein como forma de dar vida aos seus inúmeros filhos que já nasceram mortos. Ainda há tempo para aparição de mortíferos lobisomens ao serviço de Dracula. O conceito da reunião no grande ecrã de todas estes monstros não é no entanto novo: “House Of Frankenstein” (1944), “House Of Dracula” (1945) e “Abbott & Costello Meet Frankenstein” (1948).
Como se pode comprovar, os pilares deste blockbuster de tom gótico apontam em muitas direcções e esta acaba por ser a principal falha de “Van Helsing”. Durante a primeira meia hora Sommers começa por apontar em demasiadas direcções ao mesmo tempo, sendo que à medida que chegamos ao desfecho os fios vão sendo desmazeladamente unidos num remendão que dificilmente se poderá chamar um argumento, mesmo estando em causa um filme de acção. Trata-se de uma obra que não deixa respirar as débeis personagens nem o espectador, quase como se Sommer temesse os diálogos e os visse como quebras narrativas. Num pastiche gráfico muito pouco subtil, cada ideia sucede-se à anterior sem que a primeira tenha sido completada, num excesso de elementos alucinante que transformam “Van Helsing” num mero veículo para o efeito visual. E que efeitos visuais. Destaque máximo para a cinematografia de Allen Daviau que encontra desde as primeiras sequências a estética ideal, muita negra, que compõe o universo de Helsing, um justiceiro do sec. XIX com qualquer coisa de 007 (nem que seja apenas pela importância das armas).
Nesta obra que bem podia tratar-se da várias, os 150 milhões de dólares do orçamento estão todos à vista. Uso e abuso das CGI figures com destaque para a breve aparição de Mr. Hide (em aparência semelhante a Gollum, mas gigante) e os lobisomens com um aspecto verdadeiramente assustador e brutalmente “hulkianos”. Pena ver Frankenstein no seu look cyborg, tão instrumentalizado pela narrativa, onde apenas se quer destacar a bondade inata de alguém que nasceu para ser cruel. Nos efeitos especiais brilham as sequências das metamorfoses quer de humano em lobisomem que dos vampiros em morcegos com longas asas e aspecto demoníaco.
Neste melting pot, a interpretação de Jackman, embora não muito explorada, é a melhor, tratando-se de um caso de rara solidez na construção de personagens heróicas. Vislumbra-se margem de progressão para o ex-Wolverine se assumir como leading man favorito do género. Depois, Beckinsale é uma heroína fraquinha, com excessivo sex appeal e pouco carisma (o par funciona mal). Richard Roxburgh é, como direi isto de forma suave, um desastre. Ridiculariza por completo o eterno conde Drácula, transformando-o num “tolo de galochas e rabo de cavalo” debitando frases sonantes, sem classe mostrando que não basta ter semelhanças físicas com Gary Oldman para se ser um bom Dracula. Destaque ainda para o divertido David Wenman (o Faramir de “O Senhor dos Anéis”), como comic sidekick e espécie de Q da saga de James Bond.
A história tem pontos de contacto com a figura de “Blade”, num filme também de caça a vampiros por uma figura atormentada. Só que em “Blade” tudo era menos disperso e mais consciente das próprias limitações.
Espera-se que numa altura em que tantas heróis de banda desenhada surgem no grande ecrã com resultados positivos, “Hellboy”, “The Punisher”, “Spider Man”, “Van Helsing” apanhe esse hype e seja uma aposta ganha da Universal. Contudo dificilmente o será por mérito do próprio filme que nos faz rir sem que existam gags e no limite nos entretém se nos focarmos unicamente nas cenas de acção. Tudo ponderado é muito pouco o que extraímos deste “Van Helsing”. 3/10 Carlos Natálio

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