Para Hussein, um motorista de entregas de pizza, a desigualdade do sistema social é-lhe atirada à cara por onde quer que ele se vire. Um dia, quando o seu amigo Ali lhe mostra o conteúdo de uma bolsa perdida, Hussein descobre um recibo de pagamento e não pode acreditar a grande soma de dinheiro que alguém gastou a comprar um colar. Sabe que o seu salário desprezível nunca será suficiente para tal luxo.
Elenco
Pourang Nakhael, Hossain Emadeddin, Kamyar Sheisi, Azita Rayeji, Shahram Vaziri
Realizado por Jafar Panahi
Critica
“Crimson Gold”, realizado por Jafar Panahi e escrito por Abbas Kiarostami, conta a história de Hussein, um homem comum que ganha a vida a entregar pizzas pelas casas mais abastadas de Teerão, enquanto vive no centro degradado e sujo. Vencedor do prémio do Júri “Un certain Regard” no festival de Cannes em 2003 e no Chicago International Film Festival é um drama absorvente sobre a realidade urbana de Teerão.
O argumento de Abbas Kiarostami foi construído à volta de acontecimento real, um “fait divers” que leu num jornal: um ladrão assalta uma joalharia, acabando por matar o gerente da loja, e suicidando-se em seguida. A partir daqui o filme desenvolve-se como uma interrogação sobre o que poderia ter levado esse homem a um acto desesperado.
Hussein leva uma vida miserável a entregar pizzas nos bairros ricos de Teerão. Aparentemente conformado com a sua realidade, Hussein, um homem simples e bom, não deixa de ser sensível às pequenas humilhações e injustiças do dia-a-dia. Quando Ali, o melhor amigo, lhe mostra um recibo de um colar importado caríssimo, curiosos, resolvem ver a joalharia onde este foi vendido. No entanto, a viagem serve apenas para serem humilhados pelo dono que os impede de entrar devido à sua aparência, iniciando uma série de acontecimentos que conduzem ao final anunciado.
Panahi segue Hussein através das suas entregas mostrando-nos uma cidade de diferenças sociais gritantes, em que a classe média parece estar a desaparecer, enquanto em pólos opostos, a miséria e a concentração de poder e riqueza não param de aumentar. Uma sociedade divida entre os “Have” e os “Have not”.
Em pouco mais de hora e meia, Hussein e Panahi mostram-nos sítios e gente muito diferentes que têm em comum alguma desorientação: o antigo colega de guerra que pensou que Hussein tivesse morrido, o jovem soldado (Saber Safael) numa rusga policial a uma festa, o jovem emigrado rico (Pourang Nakhayi), que procura desesperadamente companhia. As referências a um tempo em que as mulheres tinham mais liberdade, à Guerra com o Iraque, à constante e autoritária presença da polícia, à opressão e submissão das mulheres, tudo desfila à nossa frente com habilidade.
Jafar Panahi tem apenas quatro filmes no currículo, mas já ganhou reputação como um dos mais promissores cineastas iranianos. Em Crimson Gold posiciona-se sobretudo como um observador da realidade iraniana, o que resulta numa autenticidade perturbadora. Aliás Jafar Panahi trabalhou com actores não profissionais para manter a veracidade da história (Hussein Emadeddin, que desempenha o papel principal no filme e consegue uma personagem realmente marcante, entrega pizzas na vida real).
As longas sequências das viagens de mota de Hussein dão fluidez a um filme com um ritmo lento (embora este seja um filme com mais acção do que é costume no cinema iraniano). A história é contada de forma objectiva e honesta, sem explicações e mensagens morais passadas mais ou menos subtilmente: o realizador admite andar “à procura”, focando as realidades das personagens e situações, cabendo ao espectador pensar e interpretar.
O “Daily Telegraph” descreveu-o como “um Taxi Driver iraniano”. Conseguimos perceber porquê, porque este é um filme sobre a cidade, sobre a realidade urbana, sobre a alienação que permite, tanto mais interessante por retratar uma realidade urbana com a qual a maioria de nós não esta familiarizado. Não é um filme político, é sociológico. O que resulta da exposição de situações e personagens é necessariamente uma interrogação sobre a sociedade iraniana e sobre a alienação urbana e a inadaptação, estas universais.
Diferente do que nos chega normalmente, no ritmo e na mensagem, “Crimson Gold” é uma boa proposta para todos os públicos interessados em conhecer outras cinematografias, outras realidades. …8/10 Patrícia Gomes
Critica
“Crimson Gold” começa com um assalto a uma joalharia. Um acto de violência que, em flashback, vai procurar entender como a hipocrisia e o desrespeito pelo indivíduo podem levar uma pessoa normal para além dos seus limites. Essa pessoa é Hussein (Emadeddin), um homem pobre, feio, com excesso de peso, que está noivo da irmã do seu melhor amigo, Ali (Sheisi).
Nos seus trajectos como entregador de pizzas, em Teerão, Hussein vê-se muitas vezes confrontado com o outro lado do prisma social, ostensivo, arrogante, fútil, depreciativo. Como uma criança a quem estendem um doce mas não o deixam comer, Hussein é atraído pela facilidade desta forma de vida. Só uma ínfima parte permitiria que ele oferecesse à sua noiva as jóias que tanto queria.
Do argumento de Abbas Kiarostami, Panahi mantém uma subtileza ao longo de toda a história, quer na expressão dos sentimentos quer no desenrolar da acção. O resultado é, ao mesmo tempo, um retrato realista e humanista da sociedade iraniana, não deixando igualmente de ser uma observação preocupada sobre a discriminação e a desigualdade em termos universais. O vale profundo que se abre da varanda de um 18º andar de um prédio de luxo é símbolo do crescente abismo entre ricos e pobres.
Num ponto da história ficamos a saber que Hussein lutou na guerra Irão-Iraque (conflito iniciado em 1980, que durou 8 anos e matou 1 milhão de pessoas), mas a sua luta pessoal/social está longe de ter terminado. Hussein é grande, mas invisível, continuamente humilhado pelas injustiças que o rodeiam.
Panahi constrói um diálogo espontâneo, até cómico, e silêncios plenos de angústia e raiva. Com sequências longas, e ocupando um espaço entre o comentário e o cinema, “Crimson Gold” baseia-se num incidente real passado em Teerão. Também perto da verdade está Hussein Emadeddin, o actor que interpreta o papel de Hussein e que, na realidade, é entregador de pizzas e sofre de esquizofrenia.
Vencedor em 2003 do Prémio do Júri na categoria de Un Certain Regard em Cannes, “Crimson Gold” é um filme perturbante e corajoso. Um relato íntimo do insustentável peso do ser. “Crimson Gold” – o ouro carmim, manchado de sangue. É também essa a cor do amanhecer em Teerão. 7,5/10 Rita Almeida

