“La Trilogie II: Cavale” por Nuno Centeio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Bruno Le Roux, antigo membro de uma organização terrorista revolucionária, foge da prisão após 15 anos de cadeia e volta para Grenoble. Aí, tenta retomar o contacto com os seus antigos companheiros e reencontra Jeanne. Professora, casada, e com um filho, esta passou uma esponja sobre o passado e não pode fazer nada por ele. Bruno vira-se então para Jacquillat, um mafioso que conheceu em tempos, mas este não quer nada com ele e tenta inclusive mandá-lo matar. De esconderijo em esconderijo, de vão de escada em parque de estacionamento subterrâneo, acaba por encontrar Agnès, uma toxicodependente a quem nenhum dealer quer fornecer droga. Esta oferece-lhe ajuda, escondendo-o em casa de uma amiga. Em troca, ele tem que lhe arranjar droga.

Elenco

Lucas Belvaux, Catherine Frot, Gilbert Melki, Dominique Blanc

Realizado por Lucas Belvaux

Site Oficial Crítica

A trilogia do realizador/actor Lucas Belvaux é um projecto deveras ambicioso. Vejamos: a idéia foi construir três longas metragens assentes no mesmo espaço temporal, com narrativas que se desenrolam paralelamente e em certos momentos se cruzam. Se estamos habituados muitas vezes a ver “filmes-mosaico” deste tipo, a idéia de dividir isto em três obras, uma comédia, um melodrama e um thriller, essa é no mínimo original.
Este texto reporta ao segundo filme, “Cavale – Em Fuga”, considerado o eixo das três fitas e o thriller. É neste filme que nos cruzamos em toda a linha com o personagem interpretado pelo próprio Belvaux, Bruno, um antigo membro de um grupo terrorista de extrema-esquerda. Este personagem serve de ligação entre os três filmes.

A história começa no genérico, negro, onde os habituais créditos são acompanhados de sons. Corpos deslizantes, portas que se abrem, fechaduras e um grito “Pare!”. Eis quando o espectador é presenteado com a primeira imagem. A de Bruno a descer os muros altos da sua prisão, correr sob uma chuva de balas para um carro que o espera, e iniciar a sua fuga. Aqui o realizador fixou uma câmara no interior do veículo, tornando o espectador uma testemunha presencial de toda a perseguição automóvel, como se estivesse nos lugares traseiros. Delicioso e estonteante. Aliás, o primeiro terço do filme revela muito experimentalismo técnico por parte de Belvaux, que brinca com a perpectiva e o ponto de fuga para criar cenas bastante interessantes.
Mas que não se assuste o leitor mais incauto. “Experimentalismo” aqui não significa que estejamos perante uma obra de contornos monótonos. Muito pelo contrário. “Em Fuga” é isso mesmo. Um homem em constante sobressalto até chegar a Grenoble, onde pouco a pouco vai tentando restabelecer todos os seus antigos contactos para vingar a sua prisão e a dos seus camaradas. Mas o mundo que Bruno descobre está muito mudado, e os outrora seus amigos são agora pessoas “adormecidas”, sujeitas à sociedade, para além de fortemente vigiadas pela polícia no seu encalço. São essas mesmas personagens as que podemos ver nos outros dois filmes da trilogia, mas em registos completamente diferentes (melodramático e de comédia de situação).
A ideia de Belvaux foi mostrar a realidade da vida através dos encontros que duas pessoas podem ter sem nunca mais se voltarem a cruzar. Essa situação, para ser criticável, só poderei expôr depois de visualizados os três filmes.
O certo é que este “Em Fuga” é bom. Muito bom. Belvaux foi buscar um leque de actores muito interessante (alguns dos quais só terão os seus destaques nas outras obras), e que dão um realismo e uma qualidade interpretativa muito acima do normal neste tipo de filmes (registe-se neste “Em Fuga” o desempenho do próprio Belvaux).
A mítica actriz italiana Ornella Muti aparece por breves momentos em algumas cenas. A razão é simples: o seu p ers onagem, proprietária de uma casa onde Bruno se esconde, só será protagonista na comédia. Muti regressa pelas mãos de Belvaux depois de um largo período de afastamento do grande ecrã, onde participou em alguns títulos de antologia (“Crónica de Uma Morte Anunciada” em 1987) e alguns mais kitsch (“Flash Gordon” de 1980, uma das suas pobres incursões nos Estados Unidos).
A maneira como o realizador belga explora o seu próprio personagem, acompanhando-o quase obsessivamente, mantém o espectador numa incógnita constante face a todo o universo das tais vidas paralelas que se passam, algumas delas reveladas em “Um Casal Encantador” ou “Depois da Vida”, os outros dois títulos da trilogia.
Se um dos objectivos de Lucas Belvaux era fazer com que os filmes funcionassem bem sozinhos, pelo menos com “Em Fuga” o objectivo foi amplamente conseguido. Resta ver os outros dois… 7/10 Nuno Centeio

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