Leni resolve apresentar o noivo Rafi à sua idiossincrática família judia. Tudo corre relativamente bem até revelarem que Rafi é palestiniano. E aí, no meio da histeria total, Rafi foge para a cozinha para ajudar a fazer o jantar. Mas, como um azar nunca vem só, deixa cair a sopa congelada do 7º andar, atingindo um transeunte. E, como a noite não estava suficientemente má, o transeunte parece ser, nem mais nem menos, o pai de Leni…
Elenco
Maria Botto, Norma Aleandro, Fernando Ramallo, Marian Aguilera, Mario Martin, Guillermo Toledo
Realizado por: Dominic Harari, Teresa de Pelegri
Críticas
Comédia interessante sobre uma família de judeus espanhola que recebe a visita da filha e do noivo para jantar. Nada de relevante até aqui, não fosse o facto de o namorado de Leni (judia) ser Rafi, um palestiniano.
Como se não bastasse, a família de Leni é completamente única. O avó, Dudu, é cego e foi um dos pioneiros que lutou pela criação do Estado de Israel. Ainda conserva a sua espingarda carregada, a mesma com que orgulhosamente matou quatro árabes. A mãe, Gloria, casou por amor, mas não tem relações sexuais com o marido desde que conceberam David, o seu filho mais novo. Tânia é a irmão de Leni, uma mãe solteira com tendências ninfomaníacas e extremamente ciumenta no que diz respeito à relação de Leni com a mão. Já David, o irmão mais novo, é um jovem de modas ainda virgem. A última das suas manias é o judaísmo ortodoxo. A única paixão que tem é a religião e um pato (que agora vive na banheira, bidé e sanita da casa). Depois há a pequena Paula, a filha de Tânia que vaguei pela casa apregoando que está grávida.
Mas Leni também tem a sua singularidade. Apresentadora de TV com alguma fama, a jovem tem tendências depressivas e neuróticas. Depois de muitas tentativas falhadas finalmente encontrou o amor da sua vida em Rafi. E tudo o resto é lhe indiferente.
É assim numa casa judia que os eventos vão ocorrendo ao melhor jeito das “screwball comedies”. E se tudo parecia controlado, e com hipóteses de ter futuro, tal o caracter agnóstico e ateu desta família, as coisas complicam-se quando acidentalmente Rafi deixa cair um tuperware com sopa congelada pela janela. Essa sopa cai em cima de um homem, que cai inanimado no chão, aparentando estar morto. O que mais poderia acontecer? Só faltava o homem ser o pai de Leni. E não é que era mesmo…
O filme arranca então para momentos verdadeiramente deliciosos e que nos levam mesmo às lágrimas de tanto rir. As paranóias de cada personagem são o prato forte do filme, ficando os antagonismos e ambiguidades do conjunto como uma mais valia sensacional. É que há momentos em que não conseguimos mesmo parar de rir, tal a natureza das sequências e o caracter das personagens.
Derradeiramente, o filme entre num campo “mais sério”, questionando mesmo até que ponto conseguimos amar uma pessoa quando tudo parece correr mal.
Com um grande argumento, a tarefa de Teresa de Pelegri & Dominic Darari na realização estava facilitada. O facto de grande parte da acção se desenrolar em apenas dois locais, fez-me mesmo imaginar que esta comédia triunfa em pleno no cinema e mesmo no teatro.
Como nota negativa, apresento apenas a discussão entre Leni e Rafi (um pouco “senso comum” para pessoas intelectualmente evoluídas), onde as personagens, por desespero ou por terem tido a noite mais estranha das suas vidas, começam a criticar-se culturalmente e em termos de civilização. Será que o amor poderá mesmo sustentar as diferenças de perspectivas que árabes e judeus têm de um conflito? O filme dá uma resposta. Agora é vê-lo e rir até mais não…
Talvez a melhor comédia que vi nos últimos tempos…8/10… Jorge Pereira
Critica
Leni (Marián Aguilera) prepara-se para a apresentar o seu novo namorado, Rafi (Guillermo Toledo), à família. Esta é uma situação já de si com potencial de tensão e de cómico. Se acrescentar-mos o facto de Leni ser judia e Rafi palestiniano, e Leni insistir para que Rafi se passe por judeu, pode-se imaginar uma série de situações caricatas com base nos contrastes de culturas e de políticas.
Pois não. Nada disso. A nacionalidade de Rafi é revelada às restantes personagens logo no início do filme. Por isso, tudo o que poderia advir desse segredo se desvanece. E a condição palestiniana face à judia torna-se tão pouco relevante que nos questionamos para que foi sequer levantada.
O filme limita-se, assim, e como já tantos outros antes, a relatar o incómodo exame dos sogros, que todos, mais cedo ou mais tarde, têm de “sofrer”. Para isso, usam-se personagens caricaturais com as quais não nos identificamos. Tal é o caso do irmão de Leni, David (Fernando Ramallo), cuja devoção aos rituais judaicos é mostrada com um arrogante paternalismo.
Algumas situações conseguem arrancar alguns sorrisos, e a ocasional gargalhada, sobretudo pelo ridículo. Se fosse um ridículo inteligente “a la Monty Python” (ou mesmo do judeu Woody Allen) eu não me queixaria, mas aqui é tudo demasiado forçado.
As duas estrelas são por Guillermo Toledo, um talentoso actor cómico, que deverá estrear ainda este mês, o bem mais divertido “Crimen Ferpecto”.
Dominic Harari e Teresa Pelegri, os realizadores, são casados e judeus não praticantes. Será que existe a possibilidade de se ser “realizador não praticante”?…4/10 Rita Almeida

