“Tarnation” por Carlos Natálio e Carla Calheiros

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Jonathan capta episódios da sua vida desde os onze anos e aos 34 resolveu criar um objecto cinematográfico único. Uma biopic da sua vida, um documentário frenético, um drama tocante, uma ficção encenada pela realidade e compilada no Macintosh do seu namorado.

Realizado por Jonathan Caouette

Critica

Na última sessão do segundo dia do Indie Lisboa, John Cooper, Director de Programação do Festival de Sundance inaugurou a pequena retrospectiva de homenagem ao festival norte-americano, com a apresentação do filme “Tarnation” de Jonathan Cauoette.

De forma elucidativa explicou que Jonathan nesta obra quebrou 3 das regras ainda sobreviventes do cinema independente norte-americano. Primeiro, não filmar com um orçamento hiper-reduzido (“Tarnation” foi feito com 218 dólares). Segundo não realizar uma obra sem pelo menos um actor conhecido (“Tarnation” conta apenas com o próprio realizador e a sia família, não tendo actores profissionais). Por último, não misturar vários géneros (“Tarnation” cruza o documentário, o drama, a biopic). Mas como também John afirmou a quebra das regras e ainda assim a capacidade de fazer um bom filme, ilustra bem a irreverência que é o verdadeiro espirito do cinema independente. “Breaking all the rules and still getting away with it”.
O género documentário tem nestes últimos anos assistido a uma evolução interessante. Primeiro, a comercialização de puros momentos de realidade de pessoas desconhecidas “Big Brother” ou famosas “The Osbournes”, como reality shows. O cinema na sua constante capacidade de adaptação à realidade que o rodeia captou esse interesse recém descoberto no espectador, denominado de agora em diante voyeur.
Assim, o cinema esbateu as fronteiras entre o documentário isento e inseriu uma vertente ficcional. E Michael Moore com “Bowling for Columbine” ( e discutivelmente, sob premissas diferentes “The Blair Witch Project”) mostrou como era possível retratar uma realidade, dando-a a conhecer aos espectadores mas inserindo-se nela e fazendo explodir a objectividade quase notíciosa, por definição associada ao primitivo documentário. O resultado era entertainment mais ou menos sério. Outros títulos se lhe seguiram como “Capturing the Friedman”, “The Fog of War”, “Super Size Me” (estes dois últimos integram o cartaz do festival).
Herdeiro deste novo filão é “Tarnation”. Jonathan capta episódios da sua vida desde os onze anos e aos 34 resolveu criar um objecto cinematográfico único. Uma biopic da sua vida, um documentário frenético, um drama tocante, uma ficção encenada pela realidade e compilada no Macintosh do seu namorado. O filme de Jonathan começa com este vivendo num apartamento em Nova Iorque com o seu parceiro e recebendo a notícia da intoxicação de lítio da suia mãe. Aí num “regresso” ao seu nascimento e progredindo pelos anos da sua adolescência vamos penetrando na vida do realizador sob a forma de um diário pop íntimo que junta legendas, filmagens em super 8, fotografias e muito trabalho de manipulação de imagem. Quase como assistir a um álbum de fotografias de família em movimento apercebemo-nos que a caótica vida de Jonathan dá uma verdadeira ficção que prende o espectador. Quando chegamos à actualidade é o encontro do filho com a mãe, esta perto de um total estado de loucura, que nos perfura a resistência ao estranho de todo o conjunto apresentado.E tudo é feito com uma sensibilidade tocante que se revela na forma anárquica como este filma os seus parentes, a mãe, os pais adoptivo, os avós. Tudo numa vertente humana tão despojada que remete imediatamente o nosso imaginário fílmico para o universo de John Cassavettes.
Por outro lado, a cambiação das cores, a música constante, o grão das imagens, o uso frequente do split screen, a extravagância dos retratos aproximam “Tarnation” de um universo wharoliano, justificando que as reacções ao filme sejam extremas. Esta primeira obra de Jonathan Caouette foi apadrinhada por Gus Van Sant e John Cameron Mitchell como produtores executivos.
Proposta arrojada e diferente na qual após o turbilhão de imagens e sons, fica a extraordinária montagem e sobretudo uma sensibilidade muito própria. 8/10 Carlos Natálio

Critica

Em primeiro lugar não gostaria de deixar de dizer que “Tarnation” está longe de ser o filme que recomendo a toda a gente, e quem o fizer tem de saber de antemão ao que vai. Quem aceitar o desafio de o ver deverá estar preparado para o que o espera. Uma mistura de imagens, de sons, de drama, e documentário de uma biografia de si mesmo, contada friamente na terceira pessoa.

Afinal, quanto custa fazer um filme de culto? Era impossível o orçamento de “Tarnation” ser mais reduzido: 218 dólares, que permitiram uma montagem original de mais de 160 de material gravado por Jonathan Caouette desde os 9 anos de idade. A verdade é que, como qualquer filme que em determinada época quebrou todas as regras, também “Tarnation” poderá almejar em breve ganhar esse mesmo estatuto de culto.

Num mundo vendido ao voyerismo, como o que vivemos, Jonathan Caouette faz-nos a vontade dizendo “aqui têm a minha vida, contada por mim mesmo”. Mas faz isto de uma forma tão nua e crua que nos leva a sentirmo-nos envergonhados por estarmos a bisbilhotar a intimidade alheia. A verdade é que não conseguimos desviar o olhar e quando terminamos queríamos saber ainda mais. Um documentário sobre a dor, e o amor incondicional do filho pela mãe, que a ama, mas que não deseja ficar como ela. Ficamos a aguardar as novidades dos trabalhos de Jonathan Caouette… 8/10 Carla Calheiros

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