Jonathan capta episódios da sua vida desde os onze anos e aos 34 resolveu criar um objecto cinematográfico único. Uma biopic da sua vida, um documentário frenético, um drama tocante, uma ficção encenada pela realidade e compilada no Macintosh do seu namorado.
Realizado por Jonathan Caouette
Critica
Na última sessão do segundo dia do Indie Lisboa, John Cooper, Director de Programação do Festival de Sundance inaugurou a pequena retrospectiva de homenagem ao festival norte-americano, com a apresentação do filme “Tarnation” de Jonathan Cauoette.
Assim, o cinema esbateu as fronteiras entre o documentário isento e inseriu uma vertente ficcional. E Michael Moore com “Bowling for Columbine” ( e discutivelmente, sob premissas diferentes “The Blair Witch Project”) mostrou como era possível retratar uma realidade, dando-a a conhecer aos espectadores mas inserindo-se nela e fazendo explodir a objectividade quase notíciosa, por definição associada ao primitivo documentário. O resultado era entertainment mais ou menos sério. Outros títulos se lhe seguiram como “Capturing the Friedman”, “The Fog of War”, “Super Size Me” (estes dois últimos integram o cartaz do festival).
Herdeiro deste novo filão é “Tarnation”. Jonathan capta episódios da sua vida desde os onze anos e aos 34 resolveu criar um objecto cinematográfico único. Uma biopic da sua vida, um documentário frenético, um drama tocante, uma ficção encenada pela realidade e compilada no Macintosh do seu namorado. O filme de Jonathan começa com este vivendo num apartamento em Nova Iorque com o seu parceiro e recebendo a notícia da intoxicação de lítio da suia mãe. Aí num “regresso” ao seu nascimento e progredindo pelos anos da sua adolescência vamos penetrando na vida do realizador sob a forma de um diário pop íntimo que junta legendas, filmagens em super 8, fotografias e muito trabalho de manipulação de imagem. Quase como assistir a um álbum de fotografias de família em movimento apercebemo-nos que a caótica vida de Jonathan dá uma verdadeira ficção que prende o espectador. Quando chegamos à actualidade é o encontro do filho com a mãe, esta perto de um total estado de loucura, que nos perfura a resistência ao estranho de todo o conjunto apresentado.E tudo é feito com uma sensibilidade tocante que se revela na forma anárquica como este filma os seus parentes, a mãe, os pais adoptivo, os avós. Tudo numa vertente humana tão despojada que remete imediatamente o nosso imaginário fílmico para o universo de John Cassavettes.
Critica
Em primeiro lugar não gostaria de deixar de dizer que “Tarnation” está longe de ser o filme que recomendo a toda a gente, e quem o fizer tem de saber de antemão ao que vai. Quem aceitar o desafio de o ver deverá estar preparado para o que o espera. Uma mistura de imagens, de sons, de drama, e documentário de uma biografia de si mesmo, contada friamente na terceira pessoa.
Afinal, quanto custa fazer um filme de culto? Era impossível o orçamento de “Tarnation” ser mais reduzido: 218 dólares, que permitiram uma montagem original de mais de 160 de material gravado por Jonathan Caouette desde os 9 anos de idade. A verdade é que, como qualquer filme que em determinada época quebrou todas as regras, também “Tarnation” poderá almejar em breve ganhar esse mesmo estatuto de culto.
Num mundo vendido ao voyerismo, como o que vivemos, Jonathan Caouette faz-nos a vontade dizendo “aqui têm a minha vida, contada por mim mesmo”. Mas faz isto de uma forma tão nua e crua que nos leva a sentirmo-nos envergonhados por estarmos a bisbilhotar a intimidade alheia. A verdade é que não conseguimos desviar o olhar e quando terminamos queríamos saber ainda mais. Um documentário sobre a dor, e o amor incondicional do filho pela mãe, que a ama, mas que não deseja ficar como ela. Ficamos a aguardar as novidades dos trabalhos de Jonathan Caouette… 8/10 Carla Calheiros

