Sinopse
O filme tem como cenário uma típica escola secundária americana, repleta de trabalho, futebol, intrigas e constantes processos de socialização. À medida que vamos conhecendo os diferentes alunos, compreendemos que a escola pode ser uma experiência estimulante e amigável para uns e traumática e difícil para outros.
Elenco
Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson, Elias McConnell, Jordan Taylor, Carrie Finklea
Realizado por Gus Van Sant
Crítica
Gus Van Sant é um realizador no mínimo bizarro. O cineasta americano é capaz de rodar coisas tão banais como “Finding Forrester” ou o remake de “Psycho”, como subitamente dá uma volta de 180 graus e se embrenha em projectos de índole alternativa (e até experimental), casos de “My Own Private Idaho”, “Gerry” ou este “Elephant”.
Segundo Van Sant, a premissa deste filme que venceu a Palma de Ouro em Cannes, assim como o prémio para a melhor realização, encontra-se numa “parábola budista sobre um grupo de cegos que examinam várias partes de um elefante. Todos eles conseguem descrever a parte que lhes cabe, mas ninguém tem a percepção do todo”. “Elephant” baseia-se no massacre de Columbine, mas é um objecto diametralmente oposto ao filme-documentário de Michael Moore (“Bowling for Columbine”). Enquanto Moore seguiu um trabalho de investigação sobre o uso de armas nos Estados Unidos, partindo de Columbine para chegar a esse objectivo maior, Gus Van Sant limita todo o enredo ficcional de “Elephant” a um dia (ou algumas horas) no quotidiano de um liceu americano.
A viagem que Van Sant nos proporciona não é nova (recorda por vezes as elipses narrativas de Tarantino), mas nem por isso deixa de ser brilhante, tanto do ponto de vista técnico e fílmico, como na vertente dramática. O espectador vai encarnar (parafraseando a explicação do realizador) dez “cegos” que não conhecem o elefante no seu todo. Dez alunos ou grupos de alunos que acompanhamos ao longo da película, sobre uma perspectiva muito intimista, por vezes quase na primeira pessoa. A câmara segue cada um dos personagens pelos corredores da escola, intersectando-se em determinados pontos no espaço e no tempo, com outros dos personagens desses túneis de realidade. Ou seja, em determinados momentos testemunhamos um mesmo acontecimento repetido quatro ou cinco vezes, sempre de perspectivas diferentes. Não há diálogos previamente preparados (ou pelo menos assim aparenta), a objectiva chega a ser claustrofóbica no seguimento de cada aluno, chegando a focar somente a cara, ignorando tudo o que o envolve. É o caso crónico de Alex Frost, o miúdo que irá dar início ao massacre. Van Sant foca-o longamente num plano no refeitório da escola. Se há agonia ou revolta escondida neste rapaz, ela está ali, à vista de todos, magistralmente retratada. Mas aqui não há figuras centrais. Saltitamos de estudante em estudante, perscrutamos as angústias de cada um, numa tentativa óbvia de encontrar nesta juventude uma explicação para a tragédia que se avizinha (ao contrário do que tenho lido em variadíssimas críticas). Viajamos pela anorexia, pelo preconceito ou pela sexualidade. Gus Van Sant avisa-nos para os problemas que existem para lá do universo adolescente: a existência de sites onde é possível comprar uma arma sem qualquer limitação, os jogos de vídeo onde podemos matar homens e mulheres, o ostracismo a que alguns são votados pelos seus próximos, pelo reitor ou pelos professores.
Não há uma procura de causas neste filme? Claro que há! A única diferença é que estão espalhadas por entre cada um dos alunos, cada um dos pais (o alcoolismo é também focado), cada pormenor da sociedade a que um típico adolescente americano tem acesso na actualidade, cada “cego” que toca apenas uma parte do gigantesco elefante social americano.
A fotografia é belíssima, com longos planos do céu nublado que apregoa más notícias. A mú sica de Beethoven, tocada por Alex ou como banda sonora, acompanham muito bem o tema do filme. Imperdível, nem que seja para ver o outro lado de Columbine. Aquele que Moore ignorou, porque o seu filme não pretendia registar esse objectivo.
9/10 Nuno Centeio
Crítica
Baseado numa história real, a do massacre do liceu Columbine, o realizador Gus Van Sant traz à luz das nossas salas o seu mais recente filme: Elephant, um filme intrigante, onde é bastante complicado chegar à essência da história. Todo o filme segue o percurso, durante um determinado dia específico, de alguns alunos de um qualquer liceu americano. Este percurso é seguido em separado, como se fosse uma apresentação de personagens que depois tomarão parte em algo maior. Inicialmente, é assim que se encara esta película. Conforme o tempo vai passando e se verifica que não há grande progressão da acção, começamos a ficar intrigados sobre o objectivo do realizador. Só o percebemos mesmo no fim, embora nos escape o porquê de tal abordagem. O desenlace é o esperado desde o início, mas eu esperava algo mais do que aquilo com que me deparei…
A realização, embora agrade ao início, torna-se cansativa. Planos muito lentos, personagens seguidas simplesmente enquanto andam, embora com alguns momentos de mestria, nomeadamente com a colagem feita entre as diferentes personagens, que se vão cruzando. Os saltos da acção e do tempo não confundem, são bem recebidos, provando que há uma harmonia entre a acção e o modo de a narrar (demonstrar, neste caso). A fotografia é interessante, com algumas imagens bastante bonitas e com simbolismo específico; porém, pondo em relevo certa personagem e deixando o resto para segundo plano, mesmo em termos de imagem (através do desfocado), acaba por retirar um pouco do encanto que a fotografia poderia ter…
As personagens são bastante comuns. Poderiam ser quaisquer alunos de qualquer liceu. Apenas de destacar algumas características que dão um pouco de interioridade a cada uma delas. No entanto, num filme baseado acima de tudo nas personagens, estas provaram não ter interioridade suficiente para fazer o espectador sentir receio, raiva, ou pena. O filme não transmite emoção, limitamo-nos a assistir, passivamente, a um final que à partida adivinhamos.
Em termos de argumento, de diálogos, é muito fraco. As personagens limitam-se a trocar algumas palavras entre si, sem sentido. A tentativa de criar algumas personagens tipo não resulta porque dá uma sensação forçada de crítica social. A história torna-se vazia porque não conseguimos criar empatia com as personagens que se vão desenhando…
Extremamente visual e auditivo, o filme baseia-se sobretudo na imagem e planos de realização e na banda sonora, que acompanha todas as alturas com bastante harmonia. Apenas aqui se salva a película. De resto, não há nada nesta história que agarre… 4/10 Cátia C. Simões