“Love Actually” por Nuno Centeio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

“Love Actually” não é uma nova comédia romântica. São dez numa só. Começando dois meses antes do Natal, o filme mostra várias histórias de amor que vão ter o seu climax na noite da consoada. De primeiros ministros, a vedetas rock, a cabeleireiras passando por uma portuguesa que só fala português, o filme é uma sucessão de gags e muito… amor….

Elenco

Hugh Grant, Colin Firth, Laura Linney, Liam Neeson, Alan Rickman, Emma Thompson, Martin Freeman, Keira Knightley, Andrew Lincoln, Martine McCutcheon, Chris Marshall, Bill Nighy, Rodrigo Santoro, Rowan Atkinson (cameo)

Realizado por Richard Curtis

Crítica

Portugal é um país por tradição de comédias. E não estou a apontar só as que se passam no dia a dia da nossa sociedade. Refiro-me às inúmeras produções cinematográficas, muitas delas de qualidade duvidosa, que passeiam o espectro de programação das nossas salas de cinema. Mas de vez em quando, no meio de muita mediocridade, lá surge uma ou outra história feliz, uma representação fora do normal, ou simplesmente um trabalho cuja origem geográfica não seja os cada vez menos inventivos estúdios de Hollywood. Um caso de sucesso têm sido todos os filmes britânicos cuja história foi assinada por Richard Curtis. Este homem natural da Nova Zelândia foi o “culpado” de êxitos televisivos de culto como “Blackadder” e de filmes tão importantes na história do cinema das ilhas como “Quatro Casamentos e Um Funeral”, “Notting Hill” e “O Diário de Bridget Jones”.

Esta nova incursão de Curtis na sétima arte vem, portanto, cheia de ilusões para os fãs dos seus filmes. Se aliarmos ao seu historial o facto de esta ser a primeira vez que o próprio Curtis decide colocar-se atrás das câmaras com um elenco de fazer corar qualquer megaprodução americana, então temos notícia.
“Love Actually – O Amor Acontece” não é uma, mas várias histórias cozinhadas ao longo dos últimos anos por Curtis. Segundo palavras do escritor, argumentista e agora realizador, se a sua carreira se limitasse à escrita de novas narrativas românticas para filmes, fazendo um cálculo de três anos para cada produção em que se envolve, Curtis permaneceria o resto da sua vida agarrado a este género. Foi então que surgiu a idéia de, numa única película, incluir dez histórias de uma só vez. Vou tentar sintetizar (garanto que não é fácil). Hugh Grant faz o papel do novo primeiro-ministro acabado de chegar ao número 10 de Downing Street. Solteirão, começa a apaixonar-se por uma das suas empregadas (a actriz britânica de televisão Martine McCutcheon). Entretanto, a sua irmã Karen (a oscarizada Emma Thompson) vive um casamento assente na preguiçosa segurança de dois filhos e muitos anos juntos com o personagem interpretado por Alan Rickman (líder do grupo de terroristas em “Assalto ao Arranha-céus”, arcanjo no genial “Dogma” e professor de bruxarias em “Harry Potter”). Mas as aparências iludem, especialmente quando o marido começa a ser fortemente assediado no escritório pela sua secretária (uma explosiva alemã, Heike Makatsch). Os problemas, obviamente, não são exclusivo deste casal. Um amigo de Karen, Daniel (o mestre jedi Liam Neeson) acaba de perder a mulher e vive agora uma relação distante com o seu enteado, que se refugia no quarto. Com alguma insistência, Daniel acaba por descobrir que o miúdo, de 11 anos, afinal está apaixonado por uma colega que nem sequer sabe que ele existe. No mesmo escritório onde os anteriores personagens trabalham está também um amor sonhador. O de Sarah (brilhantemente interpretada por Laura Linney, nomeada ao Oscar por “Podes Contar comigo”) que vive um drama complicado entre a escolha de um amor fraterno com um irmão internado que lhe telefona a toda a hora, ou a paixão que sente por um gestor de projectos seu colega, interpretado pelo garanhão brasileiro Rodrigo Santoro, que aqui se escapa das telenovelas.
Em outra história, um escritor interpretado por Colin Firth (o rival de Hugh Grant em “O Diário de Bridget Jones”) decide refugiar-se no sul de França depois de apanhar a sua última namorada na cama com o melhor amigo. No cenário calmo, à beira de um lago, vai apaixonar-se por uma emigrante portuguesa que não fala uma única palavra de inglês. “Não fala inglês?”, pergunta o leitor. Exactamente. A “nossa” Lúcia Moniz arrebata o coração do inglês com palavras da nossa língua materna, barreira linguística onde se centra basicamente toda esta mini-história. Mas há mais. Uma estrela de rock fora de moda, Billy, decide após muita insistência do seu manager, gravar um disco com uma nova versão de “Love is All Around” (tema dos Wet Wet Wet que serviu de mote a “Quatro Casamentos e um Funeral”). Apenas a letra é diferente, e onde antes se cantava amor agora está Natal, época em que se passa todo o filme. Ao contrário do cinismo inicial de Billy (interpretada por Bill Nighy) a música torna-se um autêntico êxito comercial, fazendo a velha estrela do rock repensar a sua amizade para com o manager que tanto despreza ao longo do filme. Mas há mais!! Keira Knightley (a revelação de “Os Piratas das Caraíbas”) acaba de se casar com Chiwetel Ejiofor (a revelação de “Estranhos de Passagem”). Mas o melhor amigo do noivo (Andrew Lincoln), também padrinho de casamento, vive um amor secreto pela noiva, tentando a todo o custo distanciar-se dos dois.
As restantes histórias são mais simples e elementos de ligação entre as principais. Temos Colin (o hilariante Kris Marshall), jovem inglês cujo sonho é ser o cavaleiro do sexo no lado de lá do Atlântico, onde para ele estão as verdadeiras mulheres “que gostam de brincar” (aparições fugazes de Denise Richards e Elisha Cuthbert, a filha do agente Jack Bauer na série “24”). Temos também Rowan Atkinson (o mr. Bean) num papel pequeno onde por vezes se insere sem querer na vida dos outros. E finalmente está uma irónica paixão entre dois duplos de cinema em cenas de sexo, que se conhecem precisamente nos ensaios das respectivas, completamente nús, mas que acabam por revelar uma timidez única para se envolverem num relacionamento. E para terminar esta já longa amostra falta referir a participação de Billy Bob Thornton no papel de presidente dos Estados Unidos da América!
Depois deste bombardeamento de informação acredito que a curiosidade do amante de cinema seja muita. Afinal, não é todos os dias que vemos uma parada de estrelas assim tão grande. E com cenas em português!
O certo é que “O Amor Acontece” é realmente um filme à altura dos seus antecessores, e quem gostou dos romances melosos de Curtis vai com certeza adorar este filme. No visionamento que fiz tentei esquecer por um momento que não sou grande apreciador de Richard Curtis. E tentei embalar-me pelo mote do filme: “O amor, afinal, está em todo o lado”. São interessantes (embora não originais) as analogias feitas por Curtis sobre esta teoria. O realizador filmou a chegada de passageiros do aeroporto internacional de Heathrow, onde abundam os abraços e o amor, sejam quais forem as circunstâncias.
Mas onde o filme falha não é aqui, nem sequer na comédia, bem distribuída e sem aqueles laivos de estupidez a que os americanos nos habituaram. O grande problema é que “O Amor Acontece”, tal como esta crítica, é longo. Muito longo. E começa lá para o terço final do filme a perder todo o gás que acumulara, envolvendo-se em cenas patéticas de reconciliação que poderiam, pelo menos, ter sido encurtadas. Foi a capacidade de síntese que falhou, mas não deixa mesmo assim de ser uma bela proposta para ir com a cara-metade ao cinema. 6/10 Nuno Centeio

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