Sinopse
Bill Murray é uma estrela de Tv que viaja até ao Japão para filmar um anúncio e reencontrar-se a si mesmo. Aí conhece uma jovem mulher que o vai ajudar nessa árdua tarefa.
Elenco
Bill Murray, Scarlett Johansson, Anna Faris, Giovanni Ribisi
Realizado por Sofia Coppola
Crítica
Muitas pessoas acusam Sofia Coppola de simplesmente existir enquanto realizadora e argumentista como resultado do parentesco com Francis Ford Coppola. Eu, apesar de não ser um grande fã de Sofia, creio que é um pouco injusta esta tendência popular em rebaixar por parentesco.
Fui dos poucos que não achou ‘The Virgin Suicides’ nada por aí além mas tal como sucedeu com Clint Eastwood e o seu Mystic River faço aqui um parêntesis para quem tem a realizadora na sua lista negra.
O filme vem carregado de excelentes críticas e prémios do outro lado do oceano. Nada que dê muita importância pois sucedeu a mesma coisa com a sua película anterior. Filmado em 27 dias em Tóquio, ‘Lost in Translation’ conta a história de 2 americanos perdidos introspectivamente.
Bob (Bill Murray) é um cinquentão actor de cinema em plena queda de popularidade. Há muito que já não faz filmes e viaja até Tóquio para fazer um anúncio de televisão. Atravessa o que se pode chamar uma crise de meia idade e muita indefinição em relação à sua vida.
No mesmo Hotel encontramos Charlotte (Scarlett Johansson), uma jovem formada em filosofia em Yale e que viajou até ao Japão de maneira a poder estar com o seu marido (John-Giovani Ribbisi), um fotógrafo. O trabalho de John leva-o a estar longe da mulher e esta vagueia perdida por uma cidade completamente siderada por uma cultura pop tecnológica impressionante.
É esta solidão que os vai juntar, mas não pensem que vamos ter mais um ‘affair’ de circunstância e por responsabilidade alheia. Aliás, o que achei maravilhoso neste filme foi que apesar de haver uma nítida tensão entre as personagens nada foi mal explorado e não restam assim dúvidas que a solidão de uma das partes de um casal não se resolve apenas com amantes, sexo e siga… As personagens vão evoluindo como dois bons amigos de circunstância e aproveitam-se um do outro para passar as terríveis insónias que têm.
Certamente já vos aconteceu uma situação semelhante. É como irem angustiados a uma festa onde não se sentem bem. As coisas não são do vosso agrado (a música, o ambiente, tudo). Finalmente encontram alguém e têm uma conversa noite fora com essa pessoa. A mim já aconteceu e tenho a certeza que muitos de vocês até já iniciaram relações amorosas nesta base.
Há um pouco de ‘Disponível para Amar’ de Wong Kar Wai. Há um terrivel deslumbramento, um resultado de atitudes mas sem nunca as culpar. O que sobressai essencialmente deste filme é uma terrível cumplicidade entre as duas personagens. Se me dissessem antes de visionar o filme que iria ver uma grande cumplicidade/química entre Bill Murray e Scarlett Johansson provavelmente iria me rir. Ver para crer.
O fantástico é que tal foi mesmo alcançado. Temos Bill Murray num dos melhores papéis que já o vi fazer. Mais que encarnar na perfeição o papel de Bob, Bill Murray não fez de Bill Murray – mesmo nas situações cómicas em que poderia saltar o ego. Nada. De Bill Murray nem sinal e como tal esta foi para mim a grande surpresa do filme. Por outro lado confirma-se o que já desconfiava. Scarlett Johansson é uma das mais promissoras actrizes do cinema americano. Depois do seu papel em ‘Ghost World’ e em ‘Girl With The Pearl Earring’, a actriz desempenha agora um papel tremendamente adulto e com uma capacidade artística muito superior às actrizes da mesma idade (19 anos).
Pelo meio ainda aparece um discreto Giovanni Ribisi e uma Anna Faris que volta a me surpreender após o seu papel em May.
Outro dos aspectos que particularmente me agradou foi que, ao contrário do que sucede habitualmente, as diferenças culturais não são gozadas mas sim expressas de forma muito comedida. Ninguém goza com ninguém e apenas mostra a sua surpresa – e mesmo fascínio- pela outra cultura. Todos nós estamos habituados a brincadeiras que chamarei de mau gosto. Os americanos gostam muito de gozar particularmente com os Franceses (cheiram mal) e europeus em geral (as mulheres têm pelos…etc.). Este ano ‘Love Actually’ respondeu com uma juventude americana desejosa de ter sexo com um rapaz com sotaque inglês. Mas isto, como têm consciência, são caricaturas mais que estabelecidas com o objectivo de espicaçar.
Por oposição, ‘Lost in Translation’ apresenta duas visões dos eventos com humor e sem caricaturar em demasia. Temos assim um lado cómico que contraria a melancolia que acompanha as personagens.
Com uma banda sonora de luxo e uma realização bem conseguida, Sofia Coppola ganhou o meu inteiro respeito. Até o passo lento do filme (que por vezes faz lembrar ‘About Schmidt’ e as próprias ‘Virgens Suicidas’) cai bem, não fosse este um filme sobre o não ter nada que fazer- de um ponto de vista minimalista (mas não experimentalista secante como ‘Gerry’).
Em suma, um bom filme que nem um ligeiro erro conseguiu manchar*…
9/10 Jorge C. Pereira
*Um dia Bill Murray fala com a sua mulher são 4 da manhã em Tóquio. Supostamente devia ser meio dia em Los Angeles (onde ela vivia) mas ela estava a dar o pequeno almoço às crianças e a prepará-los para ir à escola.
Crítica
Sofia Coppola pouco necessitava de provar depois do fabuloso “As Virgens Suicidas”. O filme de 1999, delírio hipnótico (ao som dos Air), deu na altura a conhecer nomes como os de Kirsten Dunst ou Josh Hartnett, lado a lado com gigantes da representação como são James Woods e Kathleen Turner. As semelhanças entre ambas as obras ficam-se mesmo por aqui. Também em “Lost in Translation” (que recebeu, ironicamente, um título português bom e adequado, “O Amor é um Lugar Estranho”) a realizadora volta a reunir duas gerações de actores. Bill Murray no papel de Bob Harris, um actor em crise de meia-idade que se vê em Tóquio através das pressões do seu agente para ganhar dinheiro. Harris é um homem que foge da sua realidade caseira; a mulher que o atormenta com pormenores decorativos da nova casa e uma carreira em fase decrescente. Como acontece com muitos actores americanos, uma solução para ganhar dinheiro é viajar ao país do sol nascente, onde os contratos publicitários são milionários – que o digam nomes como Brad Pitt, que por lá já publicitou um pouco de tudo, em spots que nós, pobres ocidentais, nunca teremos oportunidade de ver nas nossas televisões.
A outra face deste filme, a da nova geração, é harmoniosa, pálida, de uma beleza que raramente coincide tão bem com talento. Refiro-me a Scarlett Johansson, na minha opinião um dos nomes mais importantes a sair do estrelato americano nos últimos anos. Vejam-na também em “Girl With The Pearl Earring”, que estreia no princípio de Fevereiro. Aqui, Scarlett é Charlotte, mulher de um fotógrafo (o actor Giovanni Ribisi) mais interessado no seu trabalho.
“Lost in Translation” transporta-nos para um mundo tão real e ao mesmo tempo tão abstracto. Real na maneira como podemos sentir o hotel onde tudo de passa, as vibrações de Tóquio como metrópole caótica de referências estranhas para um ocidental, um mundo aparte onde chegamos e partimos conforme a nossa vida nos leva para destinos incertos. Abstracto pela viagem interior que o filme nos submete dos dois personagens. As suas dúvidas e os seus receios metamorfoseados em insónias (que os irão levar a conhecer-se) e uma terrível sensação de falta de … amor.
É nesta paisagem urbana intimidatória, onde toda uma cultura nos é imposta à contemplação pela lente ambígua de Sofia Coppola, que um amor aparentemente impossível em circunstâncias normais irá flor escer. Mas enganem-se aqueles que vêem em “Lost in Translation” apenas um passaporte para o Japão moderno. Estão lá o karaoke, os jogos, os néons, é certo. Mas a idéia central é que isto poderia perfeitamente acontecer noutro qualquer hotel do mundo (objecto de adoração pela realizadora), sob a batuta de outra cultura, outro feliz distanciamento.
As sensações que “Lost in Translation” transmitem são tão genuínas que chegam a arrepiar. Se há amor num filme então este é um exemplo máximo. Talvez possa parecer algo bizarro unir dois personagens tão diferentes como os que Murray e Johanson nos oferecem, mas é precisamente nesse desafio que reside o brilhantismo da história. E Sofia (que também escreveu o argumento) conseguiu assim mostrar ao mundo o quão melhor é, actualmente, que qualquer um do seu clã (o pai e o irmão Roman, de “CQ”). Este filme ganhou O meu favoritismo seja a que prémios for este ano.
10/10 Nuno Centeio
Crítica
Sofia Copolla é uma cineasta que por ser quem é tem um enorme peso e responsabilidade.
Normalmente costuma dizer-se nestes casos não basta ser-se bom, é preciso mesmo ser-se muito bom. E o que é certo é que se “The Virgin Suicides “ era um bom filme, este “Lost in Translation” é uma obra a vários níveis, admirável. Desde logo, porque possui um argumento onde pontua a originalidade e onde a pedra de toque é a subtileza, quer das ideias principais, quer sobretudo dos detalhes. Não é uma comédia, mas também não é um romance ou um drama no sentido mais tradicional do género.
Bob Harris (Bill Murray), é um homem cansado. Um actor que no seu país já conheceu melhores dias a nível profissional e fatigado da sua relação conjugal que ja perdura há longos anos. Vem a Tóquio fazer pela vida, que é como quem diz, participar nuns anúncios a produtos asiáticos que ele tão pouco conhece. Aproveita a fama qua ainda possui do outro lado do mundo para lhe passarem uns cheques de quantias chorudas. Também na cidade está Charlotte (Scarlett Johanssen), uma jovem licenciada em filosofia, que vem acompanhar o seu marido, fotógrafo. Também ela se sente frustrada com o seu casamento e profissionalmente perdida. A partir daqui tudo apontaria para mais um romance convencional com a única especificidade de se passar bem longe dos EUA. Felizmente nada disso acontece. A dimensão individual da obra lida com o encontro de dois seres humanos perfeitamente perdidos emocionalmente, mas onde o que é explorado é uma relação de complicidade. Não é uma relação amorosa, mas é algo muito mais forte do que uma mera amizade.
A tradução geográfica deste sentimento mútuo de desadaptação interior é a cidade de Tóquio. A grande metrópole, cheia de movimento, tecnologia, cor e animação. E nessa cenário tão ocidentalizado onde vemos japoneses surfistas, fumadores de erva e amantes do rock & roll, os ocidentais nunca se sentem em casa. E percebe-se que no filme, a sensação de estranheza perante cultura tão diferente ( será assim tanta essa distância, na realidade?) é-nos dada, não sob a forma de crítica cultural, mas sim como um reforço das personagens. Ou seja, tudo é estranho, complexo e diferente porque ambas as personagens o vêem assim. Estão perdidas também no espaço físico. E se quiséssemos ver alguma crítica ela estaria irremediavelmente centrada na cultura americana. Senão veja-se o a cena em que o marido de Charlotte (Giovanni Ribisi) se encontra com Kelly (Anna Faris). Cena na qual abundam os “yeahs”e “ahs”, traduzindo uma certa probreza intelectual. Pobreza essa que confirmamos nos descabidos comentários de Kelly sobre a anorexia. Gostava de destacar o arrepiante papel de Bill Murray, num registo completamente diferente do que estamos habituados a ver dele, num misto de improvisação e expressão facial contida, onde a ironia interior sobrevém de forma fantástica. É certamente um dos grandes candidatos à vitória de Oscar para melhor actor principal este ano. Alguém se lembra de “About Schmidt”? Se bem que num contexto muito diferente, não p odemos deix ar de pensar na forma como Jack Nicholson reflecte sobe a sua vida deixando transparecer todo uma sentimento de estranheza perante o que o rodeia , o que nos faz lembrar Murray. Seria certamente injusto não referir Scarlett Johanssen que desde “Ghost World” se vem superando e desafiando a sua tenra idade a nível de maturidade dramática.
A banda sonora apesar de não tão bem explorada como em “The Virgin Suicides” acaba por se adequar ao filme acompanhando, ora momentos mais delicados, ora cenas mais electrizantes. Desta obra fica-nos sobretudo a exaltação dos pequenos momentos de cumplicidade. Aqueles momentos de empatia por outro ser humano que nós guardamos carinhosamente na nossa memória, com um sorriso melancólico nos lábios, porque sabemos que tal não passou de uma experiência perene. Mas afinal de contas é isso que lhe dá um toque especial.
Só gostava que alguém me explicasse que título português é este? …
9/10 Carlos Natálio