Um ogre tem uma mulher que lhe faz as refeições mas é vegetariana; ele quer repudiá-la para poder casar com uma aristocrata que mantém prisioneira numa capela…
Elenco
Christelle Prot, Alexis Loret, Adrien Michaux, Laurene Cheilan, Achille Trocellier, Marin Charvet
Realizado por Eugene Green
Critica
Imaginem que querem fazer um filme numa atmosfera medieval com cavaleiros, princesas, ogres leões, mas não têm dinheiro. O que fariam? Provavelmente meteriam o projecto na gaveta até novos desenvolvimentos. Pois foi isso mesmo que o cineasta americano Eugéne Green, residente em França já há alguns anos, não fez. Resolveu fazer o filme erigindo esse universo medieval não pelo que se pode ver mas pelo que se pode ouvir. Assim assistimos a uma peça de teatro filmada onde os príncipes vestem ganga e calçam mocassins, onde os cães são leões e os ogres, humanos com sandálias e luvas cobertas de pelo.
Ora, remetido ao grau zero do artificialismo o que faz Eugene Green? Insere o espectador numa atmosfera medieval pelo diálogo teatralizado. Assim, conhecemos o Cavaleiro de Leão (Alexis Loret) que vai a caminho do castelo do Ogre para o matar e assim poder salvar uma princesa de nome Penélope (Christelle Prot) que aquele mantém cativa. A caminho conhece Nicolas um jovem que saiu de casa dos pais e vagueia pela floresta sem destino. Caminhos que se cruzam e voltam a cruzar quando o inimigo já é comum, o Ogre e os propósitos alterados.
Apresentado em jeito de conto de fadas (imaginem a remota parecença com “Shrek?!!) o ritmo é muito lento. Aí, Eugéne apercebeu-se que era o humor que unia a obra. Este é assim “fabricado” pelo contraste entre a tensão dramática entre os personagens que formata um mundo medieval com o contraste dos diálogos que remetem para elementos perfeitamente prosaicos. Um exemplo, antes do segundo duelo, entre o Ogre e Nicolas, o moribundo Cavaleiro de Leão avisa-o para não escorregar no visco de lesma que o Ogre espalhou no solo. Ao que Nicolas diz para o cavaleiro não se preocupar, pois os pais deste antes dele sair de casa ofereceram-lhe uns sapatos anti-visco de lesma. Isto na Idade Média.
Mas se a estratégia de humor é bem montada quando não está presente, o espectador sente o tempo a passar mostrando que o argumento talvez não suporte os breves 70 minutos da obra. Estilisticamente, está próximo da Nouvelle Vague mas também de obras controversas como foram “La Belle et la Bête” de Jean Cocteau em 1946 ou “Lancelor Du Lac”, de Robert Bresson em 1974. Uma proposta original na qual o cinema não conta mostrando, como na maioria das vezes mas conta seccionado a realidade (em planos muito apertados) e ilustrando. O resto cabe-nos a nós. Esta obra foi premiada com o prémio FIPRESCI na edição deste ano do Festival de Cannes… 6/10 Carlos Natálio

