“Carmen” por Nuno Centeio

(Fotos: Divulgação)

Sinopse
Estamos em 1830. José (Leonardo Sbaraglia), encarcerado e condenado à forca, relata ao escritor francês Próspero Merimée (Jay Benedict) como perdeu os galões e a cabeça por Carmen, desde que a conheceu na fábrica de tabacos onde trabalhava. Numa rixa, Carmen trucida a cara de uma colega (María Botto) e, encantado por ela, o sargento, em vez de a mandar prender, deixa-a escapar.
Desde essa altura, como cada novo amante de Carmen, José vai aproximar-se cada vez mais à marginalidade, à gatunagem e a um amor irrenunciável.

Elenco

Paz Vega, Leonardo Sbaraglia, Jay Benedict

Realizado por Vicente Aranda

Crítica

“Carmen” marca o regresso ao grande ecrã do realizador espanhol Vicente Aranda – a sua última obra, “Joana a Louca”, remonta a 2001, embora só tenha sido exibida em Portugal no King, em Lisboa, em 2003. A grande maioria do público irá buscar ao imaginário, com alguma naturalidade, a ópera “Carmen”, história trágica de um amor andaluz. O pressuposto é correcto, mas Aranda fez todos os possíveis por não se basear na peça musical, mas sim no romance que a precedeu, escrito por Próspero Merimée (1803-1870). O realizador vai ainda mais longe. Apresenta no seu filme o próprio Merimée (o actor americano Jay Benedict), homem meio francês, meio inglês, erudito que percorre a Andaluzia para perscrutar na terra, nas memórias e nos costumes as origens dos povos árabes que nela se estabeleceram em cidades como Córdoba ou Granada. Eis quando, numa das suas viagens, Merimée se depara com um bandoleiro assustado, homem de poucas falas e sentidos aguçados. É Don José, o Navarro (interpretado pelo argentino Leonardo Sbaraglia), bandido conhecido nas redondezas por já ter matado vários homens a sangue-frio, mas também pela trágica história que o acompanha. A do amor por uma mulher, Carmen (a sempre deslumbrante Paz Vega), uma mulher sensual, lasciva, tipicamente andaluza, que originou toda a espiral de desgraça que se abateu sobre Don José, pacato oficial do exército espanhol, que até a conhecer sempre mantera uma folha de serviço impecavelmente limpa.

“Carmen” é uma história clássica de amor, onde a tragédia assume contornos kafkianos, mas vivida numa experiência sem remorsos. Don José vai recaindo, baixando de oficial a bandoleiro através de crimes que vai cometendo em prol do amor intenso que sente por uma mulher, que usa o sexo como instrumento de prazer e condução de interesses. Sbaraglia montou uma personagem extremamente andaluza, onde um ouvido experiente reconhecerá que o sotaque sul-americano foi completamente diluído com sucesso. Mas a sua interpretação não é só de qualidade por esse facto. Don José mostra a sua dor de uma forma retraída, mostrando no seu olhar, nas suas expressões faciais, todo o ódio que o vai consumindo à medida que vê Carmen envolvida (literalmente) nos braços de outros homens. É indubitavelmente o melhor trabalho de actor de todo o filme.

Paz Vega, no seu papel de Carmen, consegue ser, basicamente, ela própria: uma mulher erótica, bela, de traços andaluzes (a actriz nasceu precisamente na mesma povoação de onde Carmen provém). Não é, por isso, muito difícil a esta actriz mostrar aquilo que já habituou os seus fãs (nos quais me incluo) em filmes como “Lucia y El Sexo” ou “El Otro Lado de La Cama” (a estrear por cá dia 29 de Abril). Embora aqui o aspecto da obscenidade e da líbido intensa sejam características originárias da sua personagem.

Um dos aspectos mais interessantes desta obra de Aranda é o estudo de luz e décors efectuado. O realizador aprendeu muito com alguns defeitos que se reflectiam em “Joana a Louca”, a sua última incursão pelo filme de época. Nessa fita, Aranda mostrava uma Espanha medieval algo “asséptica”, com cenários reais (Guimarães era uma das cidades onde o filme fora rodado) que por vezes denotavam um relevo estranho face aos figurinos e objectos que eram adicionados. Em “Carmen” as magníficas paisagens e monumentos andaluzes estão perfeitamente imbuídos no ambiente do filme, acompanhados de uma banda sonora aprazível, mergulhada aqui e ali no excelente repertório do cançonetismo flamengo e cigano, tão característico do castanholar sevilhano.

De notar também o facto de “Carmen” ser um filme onde o tratamento digital foi levado a cada fotograma da película, trazendo por vezes resultados de qualidade muito superior a filmes de cinematografias maiores e mais ricas (como a americana ou a francesa). Um ponto positivo, por isso, para o trabalho sem mácula do director de fotografia Paco Femenía.

Embora previsível (ou não seja a história um clássico, como referi), “Carmen” é uma nova incursão sobre um dos maiores mitos andaluzes e espanhóis. Um filme belo, que merece todos os cêntimos para uma visita a um bom cinema…. 8/10 …. Nuno Centeio

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