“The Mother” por Cátia Simões e Patricia Gomes

(Fotos: Divulgação)

Sinopse
Maio de 65. Uma avozinha típica de subúrbio.
Quando o marido morre, vê-se dependente da misericórdia dos seus filhos citadinos e com uma vida muito ocupada.
Presa em Londres, longe de casa, com os filhos a evitá-la, ela sente que a vida quase acabou. Até ao dia em que a avozinha que sempre passou despercebida, a mulher com a vida desfeita, com o coração partido, se apaixona repentinamente e imprudentemente por um homem com metade da sua idade. Mas esse homem é também o apaixonada da sua filha.

Elenco

Anne Reid, Daniel Craig, Cathryn Bradshaw, Steven Macintosh, Peter Vaughn

Realizado por Roger Michell

Critica

May tem cerca de 60 anos e, numa visita a Londres, onde vivem os filhos, perde subitamente o seu marido, vítima de ataque cardíaco. Vendo-se sozinha, passadas várias décadas de casamento, May não sabe o que fazer e muda-se para casa da filha, Paula. Esta é uma mulher divorciada e amargurada com a vida, que tenta criar o filho ao mesmo tempo que mantém a ilusão e acalenta o sonho de ser escritora. Culpa a mãe de todas as desgraças que lhe aconteceram e mantém uma relação problemática com Darren, amigo do irmão. O irmão, Bobby, é um homem de sucesso casado com Helen, com dois filhos. Ambos discutem constantemente, e ainda mais desde a “intromissão” de May na vida de ambos. Ninguém parece querer ouvir e acompanhar a recém-viúva, que se sente extremamente sozinha e desamparada e sem saber o que fazer.

Darren, namorado de Paula, está a trabalhar na construção de uma marquise em casa de Bobby. Paula pede à mãe para se aproximar dele, de modo a descobrir as suas verdadeiras intenções. Ela acede, mas acaba por apaixonar-se também pelo jovem empreiteiro. Inicia-se então uma relação viciosa para a viúva, que começa a depender do jovem para tudo e a ter de disputá-lo com a filha. Mas Darren não é propriamente estável e ainda para mais é casado; mãe e filha vão sofrer, lutando (Paula sem o saber) uma contra a outra pelo mesmo homem. Pelo meio, rancores antigos vêm ao de cimo e esta família disfuncional mostra-se em todas as suas facetas.

A história é verdadeiramente retorcida e demonstra uma família totalmente disfuncional com a ilusão da normalidade. Paula está constantemente histérica e a chorar, acusando a mãe de tudo; Bobby é insensível e frio, preocupando-se apenas com a carreira e com o dinheiro, que começa a escassear. Darren parece estável ao longo do filme, mas reconhecemos nele o perfil de malandro, que acabará por se revelar. May passa por diferentes fases de transformação. Começa perdida pela dor de se ter tornado viúva, repreende a filha pela paixão assolapada, cai nas teias do amor e do desejo e envolve-se verdadeiramente com Darren. As loucuras do amor parecem poucas para ela, capaz de fazer tudo por Darren, embora este demonstre claramente que está a usá-la. May acredita que voltou a ser jovem e que o amor é possível para ela… A dado momento, tudo se distorce e parece perdido, mas May vai libertar-se das amarras que a prenderam toda a vida, obrigando-a a ser dona de casa e a estar apenas com o marido, para começar a fazer aquilo que verdadeiramente a fascina. É uma viagem de auto-conhecimento e de ultrapassar limites que pareciam longínquos.

A realização, a cargo de Roger Mitchell (“Notting Hill”, “Changing Lanes”), é simples e o filme prima, na verdade, pelo argumento (de Hanif Kureishi – o responsável pelo guião de “Intimidade”) e desempenho das personagens. Algumas cenas são demasiado fortes, inesperadas e chegam a ser chocantes. É díficil assimilar alguns momentos, mas no final o conjunto de situações faz sentido, embora vá contra os nossos padrões e estereótipos de viuvez e família. A história demonstra que uma família é um ninho de segredos e relações complicadas, e a disfuncionalidade desta é levada ao extremo. Paula aparece mais em destaque que Bobby, constantemente histérica, dependente e acusando a mãe de tudo. Bobby está mais ausente mas demonstra perfeitamente que considera a mãe um empecilho na sua vida. É um lado diferente da solidão que aqui se apresenta, surgindo com a ruptura de um hábito antigo, de uma pessoa sempre presente. É a solidão no meio de uma multidão de gente que deveríamos amar mas que não significam nada; é a desilusão de não ter feito nada do que gostaríamos em toda a vida… e, subitamente, a espuma dos dias agita-se dentro de May e ela consegue voltar a sentir com mais ardor e fogosidade do que nos anos de casada. Este filme é, no fundo, sobre renascer. ..7/10 Cátia C. Simões

Critica

“The Mother”, o “novo” filme do realizador Roger Michell (estreou em 2003 no Reino Unido) centra a sua história na vida de May, uma mulher de 60 anos, depois da inesperada morte do seu marido. Depois do sucesso da comédia romântica “Notting Hill”, e de ter realizado o thriller dramático “Changing Lanes”, Michell parece seguir, neste projecto, numa direcção substancialmente diferente, ajudado pelo argumento de Hanif Kureishi (“My Beautiful Laundrette”, “My Son the Fanatic”, “Intimacy”), que contribui com uma habitual dose de choque e surpresas.

O filme começa com a visita de May (Anne Reid) e Toots (Peter Vaughan), um casal de meia-idade, aos seus dois filhos e respectivas famílias, em Londres. As vidas stressantes e ocupadas dos filhos deixam-lhes pouco tempo para dedicar aos pais e no meio deste encontro de família sobressai uma desconfortável falta de à vontade entre todos. A morte inesperada de Toots abre as portas para o drama de May, que subitamente se encontra sozinha. No entanto, May não se resigna a ficar sozinha e fechada em casa. Quando o filho, Bobby (Steven Mackintosh), que a leva a casa, lhe pede para não”ser difícil”, May responde “porque não?”. Afinal, foi o que fez a vida toda, limitou-se a não ser difícil em vez de viver. Ao longo do filme percebemos que passou grande parte da sua vida infeliz, insatisfeita com o papel de mãe e de esposa, mas resignada, demasiado amedrontada para fazer outra coisa qualquer. Quando May volta para Londres com o filho sabe claramente que é indesejada por todos. Se com o filho, May tem uma relação fria e distante, a filha Paula (Cathryn Bradshaw) parece sempre à beira de um ataque de nervos e culpa a mãe por tudo o que considera errado na sua vida.

É neste ponto que este drama doméstico se torna num romance improvável, tendo como protagonistas May e Darren (Daniel Craig), um carpinteiro com metade da sua idade, que está a trabalhar na casa do filho Bobby e, tornando tudo mais estranho e dramático, é o namorado casado da filha. O romance tem um carácter fortemente sexual e as cenas de sexo, embora nunca explícitas, não são evitadas. Anne Reid e Daniel Craig conseguem dar bastante credibilidade às cenas, por mais incrédulo que se encontre o espectador, derrubando dois resistentes tabus sexuais: o sexo dos mais velhos e as relações entre homens mais jovens e mulheres idosas. A partir daqui, drama, romance e conflito misturam-se numa história fértil em acontecimentos inesperados, por vezes pouco verosímeis.

Se a história, nos seus pontos fortes e pontos fracos, molda directamente os defeitos e as virtudes de “The Mother”, as interpretações dos actores brilham em ambas as situações. Anne Reid consegue uma personagem coerente num papel difícil, em que apesar de todos os seus defeitos e comportamentos reprováveis, consegue suscitar alguma compreensão e simpatia. Também Daniel Craig, cuja personagem parece demasiado estereotipada e pouco aprofundada consegue uma boa prestação. Cathryn Bradshaw, a roçar a histeria em alguns momentos, representa um contraste importante à personagem da mãe. O realizador consegue suavizar a figura da mãe e avó aos poucos e poucos, sem a submeter a qualquer transformação física radical e os planos são muito bem escolhidos para esse efeito. No entanto, não consegue evitar que este seja um filme frio, pouco agradável em alguns momentos, com personagens, no geral, tratadas de forma desapaixonada.

Apesar de “The Mother” parecer levar-se demasiado a sério para uma história com pormenores tão rocambolescos, vale a pena a visita ao cinema pela história de uma mulher que só começa a viver aos 60…7/10 Patrícia Gomes

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