
Tosar é Antonio, um homem nos seus trinta e poucos, empregado de uma loja de electrodomésticos pertencente à própria família. Antonio sente-se limitado pela sua relação permanente com o seio da família, de que nunca se conseguiu libertar. Essa redoma tornou-o uma pessoa frágil e com medo de arriscar na vida. É por isso que encarar a mulher e lhe bater é um dos escapes essenciais à sua preservação enquanto homem, por mais amor que lhe tenha.
Marull é Pilar, a sua mulher. Vítima de maus tratos, sugeridos ou referenciados por outros personagens ao longo do filme (em especial a irmã, a actriz Candela Peña, sempre disposta a ajudar), Pilar continua a amar um homem violento por vergonha, desespero e ameaça descontrolada de uma fúria irascível que pode ser despoletada a qualquer momento, pelas razões mais bizarras.
Elenco
Laia Marull, Luis Tosar, Candela Peña, Rosa María Sardà, Kiti Manver e Sergi Calleja
Realizado por Icíar Bollaín
Crítica
Quando um filme começa com a fuga apressada da sua própria casa de uma mulher, aterrorizada, acordando a meio da noite o próprio filho para fugir com ela, então o tema só pode ser um: violência doméstica. É este o mote de “Te Doy Mis Ojos”, a obra da realizadora espanhola Icíar Bollaín, também actriz em filmes como o recente “Nos Miran” e adepta da obra do britânico Ken Loach (que a dirigiu em “Libertad”). O filme venceu a maioria das categorias para que estava nomeada nos Goya (sete em nove), os prémios máximos do cinema espanhol (melhor filme, realização, actriz, actor, actriz secundária, fotografia e som).Mas se o princípio que move esta película aparenta ser uma simples mensagem de alerta social, o dramatismo das interpretações de Luis Tosar e Laia Marull elevam “Te Doy Mis Ojos” a algo mais que um simples telefilme de Domingo à tarde.
Por exemplo, a violência não é uma variável pré-fabricada e explícita como em tantos títulos do género. Aqui a tensão constante e presente ao longo da narrativa, qual ameaça pairante sobre o corpo de Marull, é o principal veículo de demonstração de um flagelo que atinge a sociedade ibérica muito em particular. Ao longo das suas quase duas horas de duração, apenas por uma vez somos confrontados com uma cena aberrante de humilhação feminina às mãos do próprio marido. Mas é uma cena poderosíssima, atordoante, e que eventualmente levará ao fim da história.
Tosar é Antonio, um homem nos seus trinta e poucos, empregado de uma loja de electrodomésticos pertencente à própria família. Antonio sente-se limitado pela sua relação permanente com o seio da família, de que nunca se conseguiu libertar. Essa redoma tornou-o uma pessoa frágil e com medo de arriscar na vida. É por isso que encarar a mulher e lhe bater é um dos escapes essenciais à sua preservação enquanto homem, por mais amor que lhe tenha.
Marull é Pilar, a sua mulher. Vítima de maus tratos, sugeridos ou referenciados por outros personagens ao longo do filme (em especial a irmã, a actriz Candela Peña, sempre disposta a ajudar), Pilar continua a amar um homem violento por vergonha, desespero e ameaça descontrolada de uma fúria irascível que pode ser despoletada a qualquer momento, pelas razões mais bizarras. É aqui que Tosar brilha a grande altura. Este actor de 32 anos tem vindo a receber papéis uns atrás de outros após a sua excelente prestação em “Los Lunes Al Sol”, outro drama sobre outra realidade ibérica, o desemprego.
Em “Te Doy Mis Ojos” dificilmente Icíar Bollaín teria conseguido melhor actor para personificar o marido perdido entre o amor à mulher com que se casou há nove anos, e os seus medos que o levam a exteriorizar toda a sua violência naquela que ama. O final, onde a câmara capta as feições confusas e perdidas de Tosar, são o exemplo máximo de uma interpretação brilhante. Laia Marull também não lhe fica atrás, embora as suas feridas sejam outras, bem mais fáceis de detectar e explorar neste veículo cinematográfico. “Te Doy Mis Ojos” foi integralmente filmado na belíssima cidade de Toledo, a poucos quilómetros a sul da capital, Madrid. A escolha ajudou nos cenários de exteriores para um filme já de si belíssimo, mas também para melhor contextualizar um problema social em zonas periféricas às grandes urbes, onde as explicações para tamanhas brutalidades no seio de um casal podem ser teorizadas. Um drama que não irá (ou não deveria) passar despercebido a ninguém. ..8/10 …. Nuno Centeio
Crítica
Violência Doméstica: Temática real, próxima e melindrosa, sobretudo no seu tratamento na 7ª arte. Basta um passo em falso para passarmos de uma história dramática para um melodrama de cordel digno de um telefilme e inadequado ao grande ecrã. “Te doy mis ojos” pega de uma forma diferente na temática, não aposta nas cenas de violência física, em espancamentos brutais e no choque pelo visual, aqui seguimos outro caminho.
Pilar (Laia Marull) farta de maus tratos foge a António (Luis Tosar) levando o filho Juan (Nicolás Fernández Luna), cena inicial que nos transmite desde logo a angustia daquela mulher. Disposta a mudar, Pilar arranja emprego num museu, e tudo corre bem, até António reaparecer, convencendo-a que graças ao facto de frequentar uma terapia é um homem diferente. E Pilar acaba por voltar a ceder. “Te doy mis ojos” é um filme denso, e tenso, uma acção angustiante que avança calmamente para um climax previsível (ou talvez não). Com um argumento regular e comum, são os dois protagonistas que praticamente levam o filme às costas, Pilar e António são dois personagens de tal forma coerentes e bem interpretados, que nos chegam a enervar solenemente.
António é o monstro, uma personagem praticamente caracterizada unicamente pelas suas acções, violento, inseguro e desencantado (ficamos cientes disto logo de início quando este homem na ânsia de inquirir o filho sobre a fuga com a mãe lhe atira boladas violentas). Já Pilar, cândida e inocente mãe de família, é mais facilmente caracterizável por quem a rodeia, o marido opressor, a mãe tradicional, e também ela vitima de violência, que a pretende ver reconciliada com o António, e a irmã, ovelha negra e rebelde da família, que tenta a tudo custo alertá-la para o perigo de voltar. Mas a frágil Pilar, como geralmente acontece na vida real, não lhe dá ouvidos e vai ter de aprender e assumir para si mesma, quem é realmente o homem que ela afirma amar.
Apenas um reparo, a questão da terapia de António, que embora violento, tem 30 e poucos anos e ainda tempo de se “curar” da sua ira (embora seja notória a sua ambiguidade na vontade). Mas será verosímil pensar que homens de 50 e 60 anos, habituados a espancar as mulheres durante toda a vida, tentem mudar com essas idades? Parece-me que aqui, na ambição de demonstrar que este fenómeno abarca todas as classes e idades, as argumentistas tornaram a terapia o “elo mais fraco” do filme.
No entanto, não é por aí que “Te doy mis ojos” se perderá como drama. A ver 7/10 Carla Calheiros

