Okwe (Chjwetel Ejiofor), um Nigeriano ilegal que trabalha como porteiro num Hotel de Luxo, descobre provas de um misterioso crime que envolve um cirurgião. Decide então investigar e contará com o apoio de Senay (Audry Tatou), uma empregada turca, e Juliette (Sophie Okonedo), uma prostituta chinesa. Frears mostra assim uma visão impar dos imigrantes em Londres, como trabalhadores invisíveis e ocupando a classe mais baixa da sociedade.
Elenco
Chjwetel Ejiofor, Audrey Tatou, Sergi Lopez, Sophie Okonedo
Realizado por Stephen Frears
Crítica
“Estranhos de Passagem – Dirty Pretty Things” marca o regresso aos nossos écrãs do realizador britânico Stephen Frears. Conhecido pelo modo de explorar os seus actores e ambientes de um modo subtil e realista, o último êxito de Frears remonta ao ano de 2000 com o muito aclamado pela crítica e público “Alta Fidelidade” (baseado no romance homónimo de Nick Hornby).
Agora, regressado ao seu país natal (também com a produção a caber à BBC), Frears volta com uma película assente numa problemática tão em voga nos dias de hoje, um pouco por todos os países da União Europeia: a imigração na sua vertente mais clandestina e ilegal. “Estranhos de Passagem” tem como cenário uma Londres anormal à de outras obras. Não encontramos neste filme os postais ilustrados da capital inglesa. Apenas ruas e bairros de gente imigrante, um pouco a recordar o excelente “Last Resort – A Última Oportunidade”, de Pawlikowski, estreado em Portugal no passado mês de Maio.
Mas enquanto esta outra produção da BBC mostrava a crueldade das habitações sociais que o governo britânico fornece aos que pedem asilo político no seu país, Frears vai mais longe, encetando uma trama verdadeiramente diabólica.
Num hotel trabalham o nigeriano Okwe (o actor Chiwetel Ejiofor), a turca Senay (o regresso de Audrey “Amélie” Tautou) e o espanhol Sneaky (Sergi López). O que aparentemente não passa de uma diversidade cultural nos quadros de uma empresa, é uma teia de histórias e fugas dos respectivos países de origem. Okwe é o recepcionista, e durante o dia trabalha também como motorista de táxi. Mas a sua profissão na Nigéria era médico. Em Londres nem sequer lhe reconhecem um visto de entrada. Senay faz parte da equipa das limpezas, e já tem uma situação “semi-resolvida”. É exilada política, mas não pode trabalhar e mantém Okwe escondido no seu apartamento. Dois casos que ela sabe poderão levá-la à deportação imediata. Sneaky é o mais antigo, não tem problemas com a imigração (é espanhol), e aproveita-se como pode da situação dos outros. É este aliás o ponto de partida. No hotel, Sneaky mantém uma operação clandestina muito lucrativa (que não vou revelar para não esmorecer o interesse do espectador).
Okwe e Senay alimentam uma relação de tensão amorosa muito bem conseguida pelos actores Ejiofor (especialmente este) e Tatou. É aliás aqui que o filme consegue atingir um nível de qualidade elevado. A contenção nas expressões de Okwe, embora saibamos tratar-se de alguém com feridas profundas, é uma verdadeira lição de representação.
Audrey Tatou também não lhe fica atrás, e ao contrário de outras suas conterrâneas, deu à sua personagem uma dicção perfeita para o papel de uma turca que sonha em dar o salto para os Estados Unidos. Uma curiosidade: Frears “recrutou-a” antes do papel de Amélie Poulain que lhe deu o estrelato, o que só por si é mais um ponto a favor.
“Estranhos de Passagem” pode, portanto, parecer um drama. Não é. Mas também é. Passo a explicar. Stephen Frears aproveitou ao máximo o argumento do novato Steve Knight (que só escrevera para televisão até agora), e consegue misturar com mestria comédia num tema complicado e de difícil aproximação. Um filme muito bom, a merecer todos os cêntimos de uma ida ao cinema. 7/10 Nuno Centeio
Crítica
Estranhos de Passagem é um filme forte e pesado. Bastante simples em termos de realização e fotografia, prima pelas interpretações seguras e emotivas e pela história comovente. A película retracta os horrores vividos pelos imigrantes ilegais em Londres. Ficamos a conhecer os seus sonhos, as suas esperanças e as horríveis condições em que são obrigados a viver. E ficamos a saber que até os sonhos têm um preço…
Seguimos o percurso de Awke e de Sanya, um africano e uma turca, sem nada em comum a não ser a partilha do pequeno apartamento. É comovente ver a evolução da história entre ambos, o nascimento de um amor condenado ao fracasso, a humilhação de um e de outro na luta por uma vida melhor. Perde-se tudo neste submundo sem escrúpulos. Até a moral, até a dignidade. Ambos se vêem envolvidos numa rede de tráfico de orgãos, que mudará o destino de ambos e que os fará compreender a natureza dos seus próprios sentimentos. Uma história comovente, forte e sensibilizante…
A realização é simples mas prima por alguns pormenores. É interessante ver a mistura étnica, o misto de hábitos, costumes e povos numa cidade cosmopolita. A banda sonora está apropriada ao filme, criando momentos de grande tensão nas partes mais tocantes.
O filme prima, acima de tudo, pelas interpretações. Sóbrias mas emotivas, sensíveis sem caírem no exagero, os actores conseguem perfeitamente convencer que vivem na desgraça e que querem, acima de tudo, alcançar uma vida melhor e serem felizes. A evolução das personagens é bem coordenada e todas as personagens são densas, até as secundárias. A maior parte delas são odiosas, mas odiosas por atitudes e não por conceitos predefinidos. Excelente mestria na coordenação de actores, que coopera perfeitamente na ligeireza da realização e com alguns planos mais fotográficos… 7/10 Cátia C. Simões

