«Blue Valentine» (Só Tu e Eu) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
Em 2004, um dos meus cineastas preferidos, Michael Winterbottom, realizou ‘9 Songs’ . Esta obra tentava mostrar o início, o durante, e o fim de uma relação que subsiste cronologicamente a 9 concertos, de oito bandas. Esta forma de mostrar o relacionamento de um casal foi aclamada na altura por apresentar a descoberta e a decadência de uma relação. Pena é que o que mais tenha sobressaído nesse filme tenha sido o sexo explícito presente nele, e não os diálogos ou a evolução das personagens à medida que se vão conhecendo e afastando. 

Blue Valentine” é o melhor que havia em ‘9 Songs’, ou seja, a ideia. Só que nesta obra de Derek Cianfrance nós realmente entramos nas personagens, apaixonamo-nos por elas, e derradeiramente sofremos com a sua separação. A ligação emocional do espectador é assim o grande chavão do filme, que vive de interpretações fulminantes de personagens ricas em virtudes e defeitos, tal e qual como nós. 

Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) são um casal que passa uma noite longe da filha, na tentativa de salvar o seu casamento. E apesar de ambos desejarem isso, é em Cindy que se concentram mais as desconfianças que tal seja possível. Isso chega até nós através de pequenos e subtis detalhes – e não por martelos pneumáticos como qualquer drama chorão o faria. Justaposto a este presente de degradação do casal, o realizador vai colocando trechos de como eles se conheceram e apaixonaram. O doce e o amargo, o paraíso e o inferno, tudo num período de seis anos, e do qual nasceu uma filha.

Curiosamente, e neste género de obras, normalmente pensa-se muito nas consequências familiares de uma separação/união, mas aqui tudo isso é paisagem e o que interessa mesmo é centrar as luzes no casal. Eles são o filme, e Ryan Gosling e Michelle Williams a chama interpretativa que nos transporta bem para dentro da acção, com as suas alegrias e tristezas.

Destaque para a assombrosa escolha musical para compor a banda-sonora desta trama. A escolha das músicas, mais que nos ligar aos temas, transporta-nos para dentro da pele das personagens, perdurando aquele “You Always Hurt, The Ones You Love” na nossa cabeça até bem depois dos créditos finais passarem.

Imperdível, e um dos grandes filmes do ano

O Melhor: Williams é a nomeada ao Óscar, mas é Gosling que fascina na sua personagem diabolicamente paradoxal
O Pior: É impossível fugir a certos clichés quando se focam relações

Jorge Pereira
 

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