‘Tokyo!’ (Tóquio!) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
Três realizadores, duas nacionalidades, uma cidade. Assim se pode começar a descrever “Tóquio”, uma compilação de que reúne três visões entre a ficção e a realidade que têm como pano de fundo a capital do Japão e uma temática semelhante: a solidão. Já Sophia Coppola tinha abordado isso em ‘Lost in Translation’, mostrando as dificuldades de integração numa cidade repleta de unicidades.

O primeiro segmento, realizado por Michel Gondry (do brilhante ‘Eternal Sunshine of The Spotless Mind’ e do medíocre ‘The Green Hornet”), acompanha um jovem casal de chegada à grande metrópole. Sem tecto para alugarem, numa cidade onde é verdadeiramente penoso e caro conseguir uma casa, eles vão ficando em casa de uma amiga, que aceita dividir a sua única divisão durante alguns dias. O problema é que os dias tornam-se semanas, e não há maneira de o casal arranjar um trabalho decente e uma casa em condições. E se o homem, que sonha em ser um cineasta, ainda consegue trabalho, a embrulhar presentes, o mesmo não se pode dizer da sua companheira, que perdida e alienada no meio de tudo sente-se cada vez mais como um objecto sem grandes “ambições”. 

Construído em forma de fábula, e extremamente simbólica, esta primeira média-metragem entra na sua recta final numa metáfora exacerbada, que nos remete para a mente de outros trabalhos oníricos de Gondry, tal como para a obra de Shôhei Imamura e até Jan Švankmajer. (8/10)

Já o segundo segmento é apelidado de ‘Merde’, e tem a realização do francês Leos Carax (Pola X). Aqui seguimos uma estranha criatura que emerge dos esgotos de Tóquio e provoca o caos. Como o próprio diz, numa estranha língua que só um par de pessoas no mundo entende, os japoneses são uns violadores cujos olhos rasgados fazem lembrar (esteticamente) o sexo das mulheres. Com diversos simbolismos e lembranças de antigas batalhas, afinal de contas a destruição que provoca é com antigo material de guerra que encontra nos esgotos, ‘Merde’ é uma verdadeiro ‘I Hate Tokio”, que infelizmente vale mais pela capacidade interpretativa do seu protagonista (Denis Lavant), do que pelo compito geral, onde é notório as criticas aos Media, aos tribunais, à politica de emigração e à xenofobia. (6/10)

Finalmente, o último segmento (Tokyo Shaking) tem a realização do sul coreano Joon-ho Bong (“Memories of a Murder”, “The Host”, “The Mother”). Neste seguimos mais especificamente a solidão por opção através de um fenómeno cada vez mais presente na sociedade japonesa, os Hikikomori: pessoas que se tornam eremitas na sua própria casa e que abandonam a interacção com outras. O realizador caricaturiza com a situação, colocando um destes eremitas a apaixonar-se por outra mulher nas mesmas circunstancias. Curiosamente, e a certo ponto, toda a sociedade está assim, isolada, fechada em casa e sem comunicar e interagir com outros. Mas como pode um Hikikomori conhecer outro? Só saindo de casa, o que provoca um turbilhão de emoções que tem como conclusão final um terramoto (físico e emocional) que obriga as pessoas a saírem das suas casas. (8/10)
 
Com grande sentido estético e um enorme simbolismo ‘Tóquio’ parece uma reacção ousada a produtos mais mainstream como “Paris Je T’aime’, mas por demasiadas vezes abandona o real e cai no metafórico, ficando o espectador com a sensação que esta obra não é mais que uma visão caricatural e estilizada das coisas, do que profundamente introspectiva sobre as temáticas que aborda.
 
De qualquer maneira é um filme a ver, e só se estranha ter demorado 3 anos a chegar aos nossos sentidos. É que não faz mesmo sentido tanto tempo…
O Melhor: A mise-en-scène dos três episódios e o delicioso detalhe dos botões da distribuidora de pizzas no episódio de Joon-ho Bong
O Pior: Demasiado simbólica e metafórica e pouco reflectiva na questão da solidão
 
A Base: Três visões entre a ficção e a realidade que têm como pano de fundo a capital do Japão e uma temática semelhante: a solidão… 7/10

Jorge Pereira

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