Baseado no livro homónimo de Chico Buarque, que até tem uma pequena aparição no filme, ‘Budapeste’ segue Costa (Leonardo Medeiros), um escritor fantasma (Ghost Writer) que começa a ver o seu casamento deteriora-se, muito por culpa da insatisfação que o seu trabalho não seja plenamente reconhecido.
Costa pode adorar as palavras, não interessando se alguém assina por ele o que escreve, mas começa aos pouco a querer mais reconhecimento, um elemento natural da condição humana.
E não é preciso ter lido o livro para entender na plenitude toda a capacidade de Chico Buarque para escrever uma história. Denota-se a léguas a queda para a poesia do escritor, que coloca em Costa ou Kosta toda a força matriz de um enredo que por vezes confunde e é inacessível, tal como a um português ou brasileiro entender e aprender húngaro, língua pela qual ele se apaixona.
E “Budapeste” é isso também, um filme sobre paixão por uma nova língua, uma nova vida, e quem sabe outro tipo de reconhecimento perto de alguém que nos dê mais valor.
Porém, não é fácil gostar desta Budapeste “amarela” como Costa descreve. O filme por vezes força demasiado o seu lado artístico, tentando mostrar através de meras imagens contemplativas da personagem principal um conjunto de emoções que acabam por não chegar até nós. E não fosse a brilhante fotografia de Lula Carvalho, filho do realizador Walter Carvalho, e ‘Budapeste’ seria muito menos interessante do que o é. É que se a insistente desconstrução e reconstrução de Costa, o paradigma do onírico e do real, e o encher a narrativa de metáforas e simbolismos, tem as suas vantagens, aqui tudo soa a obra que se perde no seu próprio umbigo, esquecendo o espectador e deixando demasiado espaços abertos este preencher com sensações avulsas e ideias mais objectivas.
Assim, em vez de um jogo de espelhos de duas personalidades, duas línguas, duas relações, dois mundos, temos um filme fragmentado, irregular, e cuja edição não facilita, não na matéria do fazer entender a narrativa, mas no torná-la um objecto verdadeiramente interessante…
De qualquer maneira, realce positivo para os actores, em especial Leonardo Medeiros e Gabriella Hármoni, que conseguem uma das melhores sequências (à la Jules et Jim”) quando em corrida na rua vão falando nas duas línguas e conhecendo-se.
O Melhor – Costa/Kosta e as saudades do Brasil e da Hungria manifestadas no telefonema e numa musica brasileira com letra húngara.
O Pior: A produção brasileira parece mais displicente que a Húngara
A Base: Não é fácil gostar desta Budapeste “amarela” como Costa descreve. O filme por vezes força demasiado o seu lado artístico, tentando mostrar através de meras imagens contemplativas da personagem principal um conjunto de emoções que acabam por não chegar até nós…4/10
Jorge Pereira

