‘The King’s Speech’ (O Discurso do Rei) por Pedro Quedas

(Fotos: Divulgação)
Um homem aparece em primeiro plano, subindo as escadas com o ar aterrorizado de um condenado a caminho da forca. Tem um aspecto nobre e imponente quando se aproxima de um microfone, preparando-se para falar para um estádio apinhado de gente que o admira. É então que abre a boca e… gagueja. Muito.
É essa a sina de Colin Firth (“A Single Man”) em “The King’s Speech”, a história, inspirada em factos reais, de Príncipe Albert, o Duque de York, que mais tarde se veio tornar o Rei George VI, o Gago, e que teve de ultrapassar a sua crónica gaguez para desempenhar os seus deveres, nomeadamente um discurso de moralização das hostes britânicos, em vésperas de uma guerra contra os Nazis.
Antes de dizer mais nada, é importante compreender isto: este é o papel da vida de Colin Firth. Um desempenho brilhante que bebe tanto da sua mestria técnica na representação física dos defeitos de fala que atormentaram o monarca como da profunda sensibilidade com que deixa vir ao de cima os sentimentos recalcados que lhe prendiam a alma e a voz. Firth é muito bem acompanhado pelos belíssimos desempenhos de Helena Bonham Carter, no papel da futura Rainha Elizabeth, e Geoffrey Rush, como Lionel Logue, o homem que ajudou o futuro rei a domar os obstáculos e, durante esse processo, se tornou o seu melhor amigo.
Uma grande muleta na qual os actores se podem apoiar neste filme são os diálogos, escritos por David Seidler, que teve de esperar 30 anos para levar esta história ao grande ecrã, depois de ter prometido à Rainha Mãe que não o faria enquanto ela estivesse viva, certamente não esperando que a Rainha Elizabeth vivesse até aos 101 anos… Este foi o projecto que dominou a vida deste argumentista e isso é notório no carinho que é posto nos diálogos, cheios de sensibilidade, humor e boa disposição.
Onde o filme falha é no que respeita à emoção. Não que não a haja, mas há pouca. E, ainda assim, demasiado controlada. “The King’s Speech” parece estar a reunir o consenso para vencer o mais cobiçado Óscar, o que não é de estranhar, pois é um filme consensual. Pena que com um pouco mais de coração talvez pudesse ter sido genial.
O Melhor: Este filme pertence a Colin Firth.
O Pior: Muito bom que é, falta-lhe um pouco mais de sangue a correr nas veias para poder atingir o estatuto de clássico.
A Base: Antes de dizer mais nada, é importante compreender isto: este é o papel da vida de Colin Firth… 8/10

Pedro Quedas

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