É fácil entender porque razão “The Fighter” está nomeado aos Óscares. O filme, sobre uma promessa do boxe perdida no meio de péssimas decisões pessoais e familiares, tem os ingredientes que Hollywood adora. Há o coitadinho, Micky Ward, os vilões aproveitadores de forma semi-consciente (os familiares), o grito de revolta (o abandono da esfera familiar que o limitam) e uma nova hipótese de provar aquilo que vale. E mesmo a previsibilidade de todo o enredo não lhe tirou força na critica americana, que tanto odeia clichés no terror e comédia, mas depois cai facilmente neles em materiais requentados, reciclados e adaptados a partir de histórias reais.
É realmente “The Fighter” um título memorável no género, ou no ano de 2010? Não, não é. “The Fighter” é um melodrama que por vezes cai no óbvio e no fácil, e que não tem nenhum elemento que o distinga, a não ser o caso real em que se inspira e alguns raios de genialidade de Christian Bale. Talvez a vida Micky Ward seja de louvar, mas esta fita, na forma como foi tratada, é uma espécie de música (má) fatalista de Eminem, e acima de tudo um trabalho extremamente convencional de um cineasta dito rebelde, que escolheu um actor para protagonizar uma personagem que precisava mais da voz que o Rei Jorge VI de Inglaterra em ‘The King’s Speech’.
Micky Ward (Wahlberg) é um pugilista de pesos médios. O seu treinador é o irmão, Dicky (Bale), uma antiga vedeta do boxe mais conhecida por fazer tropeçar (ou cair, depende da vossa interpretação) o grande Joe Louis. A decadência do irmão começou devido ao consumo de crack, talvez a maior praga que atacou os EUA nos anos 80. Constantemente aluado, é frequente ele esquecer-se de ir treinar o irmão. Mas Micky ainda tem mais azar. A sua mãe e empresária parece mais interessada no conceito de família global do que nas pessoas individualmente. Como tal, ela vai arranjando alguns combates de lucro imediato, mas que fustigam Micky e que lhe tiram a hipótese de ter uma carreira realmente boa no mundo da modalidade.
No meio desta embrulhada, Micky arranja uma namorada, Charlene (Amy Adams), que vai passar a ditar como a vida dele deve ser. Ou seja, ele sai da influência da mãe e cai na da namorada, ainda que as opções desta (que passam a ser suas) sejam mais correctas, pelo menos do nosso ponto de vista. E é nesse tom insonso de Micky, um homem sem grande personalidade e incapaz de dar um valente berro, que toda a obra se apoia, num trabalho que como vi alguém escrever, “só se estranha por não ser realizada por Ron Howard”. A sua personagem não parece ter mais que uma dimensão, e esta é demasiado vista no cinema para nos agarrar. Já Wahlberg, o homem que dá vida a este Micky, é um actor sem grande densidade dramática, não tendo evoluído quase nada desde ‘Boogie Nights’. Francamente, e no meio de este elenco, ele é um dos elos mais fracos.
Em oposição temos Christian Bale, que apesar de inicialmente parecer cair no overacting, modera-se e rouba todas as cenas em que aparece. Já Melissa Leo e Amy Adams cumprem bem a sua missão, em personagens já vistas e revistas no cinema, interpretando o chamado “white trash”, mais ridicularizado no cinema do que tratado propriamente em dramas.
Se me perguntarem se elas merecem estar nomeadas, a minha resposta é não, e acharei tremendamente injusto se por acaso Leo ultrapassar Jacki Weaver na corrida ao Óscar de Melhor Actriz Secundária, mesmo achando-a uma actriz fenomenal.
Quanto à nomeação de David O. Russel, em detrimento de Christopher Nolan, acho-a perfeitamente descabida. E note-se que não sou uma completo fã de ‘Inception’. O. Russel não inova absolutamente nada, segue caminhos extremamente previsíveis, não tem espectacularidade nas cenas de luta, nem suficiente introspecção das personagens nos momentos mais dramáticos. Para além disso, e com excepção de Bale, todas as personagens parecem mal desenvolvidas, unidimensionais, e derradeiramente supérfluas. Veja-se “Winter’s Bone” para se comparar. Deste lado também temos muitos clichés, mas a forma como a realizadora tratou de os mostrar transformou a experiência em algo arrebatador.
Por isso considero a presença de “The Fighter” nos Óscares como o maior erro de casting da cerimónia, mas Hollywood parece cegar cada vez que as luzes dos ringues se iluminam…
O Pior: A realização de David O’Russel com base num argumento muito pouco arrojado.
O Melhor: Christian Bale e a única personagem realmente tratada como deve ser neste melodrama reciclado
A Base: Considero a presença de “The Fighter” nos Óscares como o maior erro de casting da cerimónia, mas Hollywood parece cegar cada vez que as luzes dos ringues se iluminam…4/10
Jorge Pereira

