‘Black Swan’ (Cisne Negro) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
Doze anos após a sua primeira longa-metragem, o cineasta Darren Aronofsky  volta a jogar com a saúde mental das suas personagens, quando estas se aplicam cada vez mais nas suas obsessões: seja a matemática de “Pi” (1998), a droga e os demónios interiores em Requiem For a Dream” (2000), os erros do passado em “The Wrestler” (2008) ou o Ballet – e o alcançar a perfeição – em “Black Swan” (2010). 
Aliás, os estudos das obsessões e da mente humana são constantes na cinematografia de Darren Aronofsky, um cineasta que traça uma fina linha entre a genialidade e a paranóia, tendo sempre como fundo diversas pressões, normalmente derivadas da competitividade, seja com outras personagens, seja consigo próprio.
Em “Black Swan” seguimos a incrível  competição que existe no universo do Ballet, e que acaba por fazer mais uma vítima, Beth Macintyre (Winona Ryder), uma bailarina veterana obrigada por Thomas Leroy (Cassel), o encenador, a se reformar depois de o público começar a escassear e de estar cansado da mesma estrela. 
Para o lugar desta antiga estrela é escolhida Nina Sayers (Portman), uma bailarina que há anos integra a companhia de dança, e que vê aqui a oportunidade de ser a estrela principal. Logo em termos físicos da personagem verificamos as exigências deste mundo competitivo, pois a jovem surge perante os nossos olhos extremamente magra, num corpo infatilizado e marcado com diversas “feridas de guerra”, especialmente nos seus pés, forçados a aguentar com o seu corpo com a ligeireza de uma pluma. E é logo aqui que também verificamos o exigente trabalho de “casa” que Natalie Portman teve de executar, mantendo uma linha rigorosa e constrangindo-se de uma alimentação e hábitos sociais ditos normais. Creio que desde “The Machinist”, quando um Christian Bale esquelético nos invadiu o ecrã, que não me lembrava de um actor forçosamente ter de fazer um rigoroso trabalho pré filmagens, ainda que haja milhares de  exemplos disso, como os de Seth Rogen para “The Green Hornet”, ou Hugh Jackman para o próximo filme “Wolverine”.
E é aqui neste trabalho antes das filmagens que começa a razão da nomeação de Portman a Melhor Actriz. Mas não se pense que esta postura fragilizada corporalmente basta, e Natalie Portman sabia bem disso. Assim, e como complemento à sua nova estrutura física, a actriz cria uma personalidade dúbia, repleta de ingenuidade, mas também de repressões, que de alguma maneira terão de forçosamente se revelar. Ora quando estas repressões e o desejo da perfeição são alimentadas pelo medo de perder o papel com a chegada de uma nova bailarina (Kunis), vem ao de cima a paranóia, as visões, e diversos conflitos numa alma em violenta turbulência.
E aqui há duas notas muito importantes a tomar. De um lado temos uma actriz perfeita para nos apresentar os conflitos interiores das suas exigências. Do outro temos um cineasta que mais uma vez consegue fazer, de forma exímia, o estudo de uma personagem, na sua descida ao inferno interior.
A acompanhar estes dois elementos fundamentais, e para que o filme funcione, temos outras forças que lhes dão os alicerces para suster todo o peso da obra. Os actores secundários estão bastante bem, ainda que se possa dizer que todos eles são aglutinados quando Portman está em cena. Se por um lado isso torna o filme mais intimista, por outro tira força à fita no global, compensando mais a interpretação principal, em detrimento do geral. Mas este é um filme sobre Nina. Este é um filme sobre o cisne branco e cisne negro que há nela. Este é o filme de Portman.
Para ajudar a essa metamorfose pessoal há ainda outros elementos fulcrais, como a banda sonora de Clint Mansell, um habitué nos filmes de Arafnovsky, que mais uma vez consegue criar um trabalho exemplar, conjugando bem o que era obrigatório estar presente (Tchaikovsky ) com o necessário para esta versão contemporânea. O simbolismo dos espelhos (com alguns tons do cinema coreano), as sombras criadas pela cinematografia,  e o trabalho da edição de som e imagem, associados aos elementos já definidos acima, criam assim um filme com uma narrativa sufocante, claustrofóbica, e derradeiramente marcante, o que faz com que em inúmeros momentos de “Black Swan” nos sintamos completamente absorvidos nas transformações da personagem de Portman.
Imperdível…
O Melhor: Portman sobrepõem-se a tudo
O Pior: Alguns simbolismos (Nina não se lembrar de coçar, os espelhos, etc) são demasiado simplórios e banais para um filme desta complexidade…
A Base: Um filme com uma narrativa sufocante, claustrofóbica, e derradeiramente marcante, o que faz com que em inúmeros momentos de “Black Swan” nos sintamos completamente absorvidos na própria metamorfose da personagem de Portman….9/10
Jorge Pereira

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