‘Hors La Loi’ (Fora da Lei) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

As feridas da guerra da Argélia ainda não estão saradas. Aliás, se há relação complicada em França é a dos argelinos com os ditos nativos. Os mais velhos lembram-se das lutas pela independência e do que sofreram com isso. Os mais novos, de segunda e terceira geração, já com a cidadania francesa, lutam pela cada vez menor oportunidade de integração social. Todos eles sofreram na pele os efeitos de uma guerra marcante, que deixou mesmo o continente africano e atingiu o solo francês.

“Hors La Loi”, na lista dos pré-seleccionados ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, aborda isso mesmo. Inicialmente, a sua acção começa por decorrer na Argélia, onde o colonialismo mostra o pior que há em si, quer na deslocalização de famílias, quer na repressão violenta a quem se levanta contra ele.

Rachid Bouchareb começa o filme de forma eficaz, não entrando com pezinhos de lã, mas fornecendo ao espectador um violento murro no estômago.

 
Acompanhando uma família, obrigada a sair da sua terra de sempre devido a burocracias e falta de registos de propriedade, o filme praticamente começa com a morte da figura paternal, o que vai instigar nos seus três filhos (Massoud, Abdelkader e Saïd)  sensações de repulsa para com a república francesa.

Anos mais tarde, Massoud (Roschdy Zem) alista-se para a guerra na Indochina e Abdelkader (Sami Bouajila) está detido em França. Já Saïd (Jamel Debbouze) vinga o pai – assassinando um dos responsáveis pela expulsão dos seus terrenos quando eram ainda crianças.

Os três voltam a reencontrar-se em França, quando Saïd decide viajar para lá com a Mãe. Estes sobreviventes do massacre de Sétif (1945 ) organizam-se então como uma resistência em Território Francês, tentando angariar colaboradores para os seus ideais. Aos poucos vemos a história dos conflitos em solo francês, onde eram frequentes as guerras nos cafés (entre partidários da FLN e da AMN), os assassinatos particulares entre os membros dos grupos rivais, enquanto a perseguição francesa a estes insurgentes (como seriam hoje definidos) se acentua. E à medida que a história avança, mais imponente e estrutural se torna a organização destes homens, que vão ao socialismo e ao islamismo buscar alguns conceitos e que a seu tempo chegaram a ter apoio (não oficial) do partido comunista francês.

Naturalmente que todos estes temas são sujeitos a polémicas, e a crispações de historiadores sobre os factos relatados. Factos à parte, pois Bouchareb sempre avisou que se tratava de uma obra de ficção com um cunho pessoal muito subjectivo, o certo é que há mais que foras da lei neste filme. Bouchareb consegue criar líderes de um movimento independentista, de guerrilha urbana, bem no coração do opressor.

 
Paralelamente, o cineasta apresenta um conto familiar, onde os irmãos funcionam como um bloco sustentado pela figura maternal, uma mulher muito contida e capaz de tudo pelos filhos. E mesmo quando Saïd se afasta um pouco do conflito, pois quer é ser feliz e viver longe da pobreza, a ligação com os irmãos mantêm-se. E sim. Este é um filme sobre foras da lei, mas é também uma obra sobre apaixonados ideológicos e relações familiares.

Com grandes sequências de acção, personagens bem preenchidas, e um ritmo deveras interessante de acompanhar. “Hors La Loi” é um interessante filme sobre três homens que em tempo de guerra decidiram agir, quer seja para proveito próprio ou por idealismos pelos quais eles acham que vale a pena morrer.

E é curioso ver que 2010 trouxe dois filmes que abordam a situação argelina no último século (embora em períodos diferentes). Ambos com qualidades suficientes para marcarem as carreiras dos dois realizadores.

A ver…

O Melhor: O primeiro terço do filme é tremendamente eficaz colocando logo o espectador em alerta com a sensível temática que está a seguir

O Pior: Pelo meio há algumas incongruências e inconsistências narrativas

A Base: Com grandes sequências de acção, personagens bem preenchidas, e um ritmo deveras interessante de acompanhar. “Hors La Loi” é um bom filme sobre três homens que em tempo de guerra decidiram agir, quer seja para proveito próprio ou por idealismos pelos quais eles acham que vale a pena morrer… 7/10

 
Jorge Pereira

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