‘Black Swan’ (Cisne Negro) por Cátia Simões

(Fotos: Divulgação)

“Black Swan” não é um filme fácil de se ver. Incomoda, do início ao fim, seja pelas personagens densas seja pela evolução da tensão ao longo dos minutos de fita, seja pela própria banda sonora, a subir de intensidade e a marcar as diferentes fases.

Darren Aronofsky (“Requiem for a Dream”) não simplifica a vida ao espectador, que está tenso do início ao fim. Mas é uma tensão boa, de se sentir que se está a ver uma fita diferente, intensa e densa.
 

A história mostra o lado mais negro da competição nas companhias de bailado clássico. Natalie Portman veste a pele de Nina, uma bailarina doce e ingénua, tecnicamente perfeita. Quando a principal bailarina da companhia, Beth Maclntyre (Winona Ryder), que tinha o papel principal na companhia se reforma, abrem as audições para a substituir numa nova adaptação do “Lago dos Cisnes”. Nina concorre ao papel, imbatível na pele de cisne branco mas com falta de garra e sensualidade para vestir o cisne negro. A preferência para este papel recai sobre Lilly (Mila Kunis), e as duas competem para se tornarem rainhas dos cisnes.

A partir daí a competição começa a aumentar de tom, com Nina a explorar lados da sua personalidade até então desconhecidos e a resvalar lentamente para um registo meio louco, por um lado impulsionada a libertar-se pelo director artístico da companhia de bailado (Vincent Cassel) e por outro a ser retraída pela mãe, dominadora e que vê na filha a possibilidade de ela ser a bailarina que a própria nunca foi. Ao mesmo tempo, Nina tem de lidar com o espírito desenvolto e provocador e com as ambições de Lilly.

A principal mensagem deste filme de Aronofsky é a capacidade humana de se chegar a limites quando se quer alcançar muito um objectivo. O clímax, que marca também o final do filme, vem no tempo certo e choca.

O filme é sempre perturbador mas com ritmos perfeitos, com muitas cenas de bailado que não se tornam cansativas. E a banda sonora, clássica, ajuda a criar o ambiente. Um destaque muito positivo para as coreografias e também para a direcção de actores, ajudada pelo argumento. As personagens são densas, dúbias, complexas, com duas caras.

O desempenho dos actores é soberbo, com o destaque a ir, naturalmente, para Natalie Portman, uma das preferidas na corrida ao Óscar de Melhor Actriz este ano. De doce e inocente a sexy e psicótica, sem perder a coerência e mostrando perfeitamente a sua evolução. As próprias cores escolhidas para os seus figurinos demonstram essa evolução, passando progressivamente do branco para tons mais escuros. Mila Kunis também está perfeita na pele de sensual provocadora e, juntamente com Portman, protagoniza uma das cenas mais sensuais do cinema dos últimos tempos.

Aronofsky consegue, através de uma realização que usa bastante a câmara de mão e planos subjectivos, sem se tornar cansativa, envolver totalmente o espectador na fita. A não perder.

O Melhor: O desempenho de Natalie Portman e a evolução das personagens.
O Pior: A personagem da mãe de Nina poderia ter uma presença maior e com mais intensidade.

A Base: Até onde se vai para se alcançar um objectivo? O filme é um retrato da competição nas companhias de bailado clássico como espelho.. de qualquer área de actividade… 9/10

Cátia Simões

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