‘L’illusionniste’ (O Mágico) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Do realizador francês Sylvain Chomet, mais conhecido entre nós pelas “Les Triplettes de Belleville”, chega até nós “O Mágico”, uma nostálgica e melancólica viagem aos anos 50 e quando a cultura pop começa a substituir as formas de entretenimento, relegando ilusionistas, ventríloquos, trapezistas e palhaços para formas de cultura e diversão do passado.

Baseado num argumento de Jacques Tati, escrito em 1956, e guardado por mais de cinquenta anos pela família, “O Mágico” é uma carta de amor de um pai para uma filha: de Tati, génio da comédia e lenda do cinema francês que executou obras como ‘Mon Oncle’ e ‘Playtime”, para Sophie Tatischeff, a sua filha. Mas o filme vai mais além, sendo uma verdadeira ode a outros tempos, ao cinema, e especialmente à animação.

Tatischeff (com uma fisionomia semelhante a Tati) é um antiquado e envelhecido mágico que já viu melhores dias. As pessoas parecem se afastar da Magia como forma de entretenimento e ele não vê outra saída a não ser procurar um local onde a sua arte seja apreciada, e remunerada como merece, pois claro. De França a Londres, passando pela Escócia, o filme acompanha o mágico, que entretanto cruza-se com uma rapariga que trata como filha, seguindo ambos para Edimburgo à procura de mais para as suas vidas.

 
Mas o mundo já não é o que era, e este antiquado homem vai aprender, aos poucos, que está deslocado dele, como se o rei da ilusão fosse o mais iludido de todos, havendo assim de procurar novas formas de sobreviver.

O ventríloquo que vende o seu boneco (que já ninguém sequer quer comprar), o palhaço depressivo prestes a suicidar-se, ou o trio de trapezistas saltitões, funcionam como uma clara mudança dos tempos, representando velhas artes caídas no esquecimento. Em oposição, o filme reflecte as novas tendências, quer através dos novos heróis pop (via uma banda musical cercada de adolescentes histéricas), quer nos novos mecanismos de negócios (lojas que contratam animadores), etc.

E com tudo isto Chomet constrói um filme mágico, com uma nostalgia bidimensional no traço e um tom de fita semi-muda que é mais do que suficiente para nos divertir, quer através da comédia slapstick, quer com os sinais de outros tempos já idos e que dão que pensar.
Creio que a certa altura da vida todos nos vamos sentir como Tatischeff, e todos iremos procurar o nosso lugar na inevitavel nova ordem das coisas.

O Melhor: Tatischeff Vs Tati no cinema. Hilariante e mágico…
O Pior: A técnica 2D vai afastar mais as crianças que os adultos…

A Base: Chomet constrói um filme mágico, com uma nostalgia bidimensional no traço e um tom de fita emi-muda que é mais do que suficiente para nos divertir, quer através da comédia slapstick, quer com os sinais de outros tempos que dão que pensar…8/10

 
Jorge Pereira

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