‘Des hommes et des dieux’ por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Passado nas montanhas do Magreb por volta de 1996, e baseado em factos reais, “Dos Homens e dos Deuses” acompanha a vida de um grupo de monges Cistercienses Franceses que vivem junto a uma população muçulmana que os adora. Para além de haver a clara noção de que a cidade cresce com a ajuda do mosteiro, a relação destes homens de Deus com a terra e com as populações decorre com o maior dos respeitos, não violando em nenhum momento as suas convicções religiosas, mas ajudando-os a ultrapassar diversos problemas, sejam de saúde ou da sua condição de pobreza.
Como a certa altura uma personagem diz, os monges são o galho, a população os pássaros que se apoiam nele. Mas tudo isso é afectado com o aumento da violência contra os estrangeiros, e quando um grupo de croatas é selvaticamente morto, o grupo de monges começa a temer pela vida, ficando no ar a grande questão, se devem abandonar o local e as suas gentes, ou continuar, porque o que tiver que acontecer, está sobre a alçada de Deus.
Realizado com mestria por Xavier Beauvois (‘Le Petit Liutenant’), “Dos Homens e dos Deuses” é um filme sobre vocação espiritual, abalado pela política e por causas religiosas fundamentalistas. Os monges sabem perfeitamente que são fulcrais na região, e que se abandonarem-na, a população acabará por ficar entregue ao terrorismo, ou então militarizada pelo poder governamental.
Com bastante calma, o cineasta vai nos mostrando os temores de cada um dos homens, as suas dúvidas e medos, mas também as suas convicções, que como o líder dos monges definia no filme, podem facilmente ser interpretadas como puro idealismo ingénuo.
Na realidade, a vocação destes homens está bem definida, e a sua imparcialidade em todo o processo, acaba mais por os prejudicar que outra coisa. Ao ajudarem os terroristas feridos, começam a ser mal vistos pelas tropas governamentais, sendo convidados a sair. Por outro lado, eles próprios confrontam os insurgentes armados, reiterando que o mosteiro é um lugar sagrado livre de armas e que não podem ceder nem material, nem o médico para ajudar a sua causa.
No meio eles vão ajudando a população, semeando as terras, e demonstrando o lado mais humano e menos materialista das organizações religiosas que sem sombra de dúvida, quer se goste ou não delas, tem um papel social fulcral em quase todos os países do continente africano.
No final, fica a beleza da “última ceia” do grupo ao som do Lago dos Ciesnes, grupo esse que intimamente sabia que o seu futuro era uma incognita perigosa, mas que acima de tudo queria ter a paz interior de saber que estava a fazer o correcto. As suas caras são magistralmente captadas e a cinematografia de Caroline Champetier detecta nas suas feições todas as sensações que os monges sentiam nesse derradeiro momento.
O Melhor: A forma contida de Beauvois em mostrar um Drama, não caindo em melodramatismos, situações de suspense arrojadas, e intercalar tudo com pequenas acções do grupo no seu entrosamento diário com a população
O Pior: O estudo da população e do seu papel de peão no meio de tudo poderia ser mais aprofundado.
 

A Base: Realizado com mestria por Xavier Beauvois (“Le Petite Liutenent”), “Entre Homens e Deuses” é um filme sobre vocação espiritual, abalado pela política e por causas religiosas fundamentalistas….8/10
 
Jorge Pereira

 

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