Quando se adaptam séries de livros ao cinema, costuma-se argumentar que cada um dos filmes da série, ainda que parte de algo maior, deve apresentar por si só uma unidade e um valor que justifiquem a sua realização. “Harry Potter 7 – Parte 1” é um filme que não se encaixa bem no argumento, sem nunca se revelar um filme desnecessário à série: a primeira parte da adaptação do último livro da série, que foram crescendo em tamanho e negrume com o passar dos anos, o filme tenta alinhar todas as linhas e pontas soltas para preparar o final, na sequência do choque brutal no final do filme anterior que faz com que a estrutura habitual (Dursleys – Weasleys – Comboio – Hogwarts) seja pela primeira vez abandonada, acompanhada com a desorientação da perda de um mentor e das suas indicações. É, à primeira vista, um filme confuso e lento, mas isso resulta do estado mental das personagens principais e da dificuldade de perceberem o que tem de ser feito, mostrando a sua verdadeira força na forma como consegue encaixar todas as peças soltas das adaptações anteriores e focar-se nas relações das personagens principais. É, para além de um filme de óbvia qualidade técnica, um esforço monumental e impressionante de adaptação e de escrita e revela uma compreensão dos livros e uma fidelidade às personagens maiores do que outros na série.
O filme, sendo o sétimo da série, começa sem qualquer exposição do que se passou nos filmes anteriores e é pensado para os fãs da série de filmes ou dos livros. Harry, Hermione e Ron procuram as Horcruxes criadas por Lord Voldemort e tentam destruí-las como podem, baseados em elementos crípticos que lhes foram passados por Dumbledore. Sem a presença de adultos para os ajudar a compreender estes elementos, sentem-se pela primeira vez desamparados e procuram percebê-los entre si, enquanto são influenciados pela influência maléfica de Voldemort. Com algumas cenas emocionantes de acção, como quando entram no Ministério da Magia, agora um local de perseguição e medo, com toques de “Brasil” de Terry Gilliam, o filme consegue encontrar o seu equilíbrio na emoção da amizade, no crescimento das personagens e na forma como transforma a confusão inicial num propósito definido no final.
Com as representações sólidas das personagens secundárias de grandes estrelas britânicas a passarem para segundo plano, sobressai a representação do trio de actores que, ao final dos tantos anos, ganharam uma facilidade e um reconhecimento como estas personagens que, apesar da desigualdade da habilidade entre eles, consegue manter o filme. Consegue antever-se, se conseguirem livrarem-se do estigma que uma série com a popularidade que esta tem, um futuro no cinema, pelo menos para Emma Watson e Rupert Grint.
Argumentar que este é um filme menor da série, mostra a capacidade de incompreensão do papel importante que este serve no todo e na preparação de um final que se prevê incrível e, para os mais impacientes, demasiado longe.
O Melhor: A relação entre Harry, Hermione e Ron.
O Pior: A espera pelo último filme.
A Base: É um filme de qualidade inegável, essencial para toda a aventura que começou há anos…8/10
João Miranda

