‘Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1’ por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)

A sétima e penúltima entrega da vida cinematográfica de Harry Potter encontra o protagonista e os seus fieis amigos – Hermione e Ron – numa corrida contra o tempo para destruir os Horcruxes, objectos que possuem partes da alma do grande antagonista Voldemort. Mas na sua cruzada, Potter vai descobrir a existência de uns Talismãs da Morte, artefactos que podem se revelar decisivos na luta com o maléfico Lorde que vitimou os seus pais.

Seria compreensível dizer que ‘Harry Potter and the Deathly Hallows’ sai gravemente prejudicado por ser a primeira parte de dois filmes: a ausência de climax final e a sensação de interlúdio roubam relevância à sua história. Mas a verdade é que esta sensação já habita na saga de ‘Harry Potter’ há bastante tempo: os dois filmes anteriores já careciam de autonomia narrativa e de um sentido de importância individual.

Nunca li os livros de ‘HP’ e confesso que houve filmes da saga que achei brilhantes – ‘Chamber of Secrets’ e ‘Prisioner of Azkaban’ são aventuras ricas e emocionantes – e outros que achei francamente fracos – o caso mais evidente ‘Order of the Phoenix’. Se ‘Deathly Hallows’ representa uma recuperação da série face a ‘Phoenix’ ou ao também redundante ‘Half-Blood Prince’, a realidade é que os problemas da saga revelam-se aqui mais estruturais do que ocasionais.

‘HP7’ conta com uma fotografia assombrosa do “nosso” Eduardo Serra e está muito bem realizado por David Yates – o filme conta com momentos de verdadeira emoção eximiamente bem conseguidos como a sequência do concílio de Voldemort que abre o filme e a cena onde Harry Potter visita o local da morte dos seus pais e termina a enfrentar a serpente. Emma Watson é cada vez mais uma grande actriz como Hermione, e o elenco que apoia o filme é, como sempre, brilhante. Bill Nighy com particular destaque.

Mas os problemas que vinham a assolar os filmes recentes permanecem, e confesso que, à primeira vista, a sua origem são os livros de JK Rowling. O seu imaginário pura e simplesmente não é tão rico e completo quanto os 7 livros gigantescos e 8 filmes acima das duas horas dão a entender. A luta estendida entre Harry Potter e Voldemort parece mais um limbo de teimosias que vem sendo adiado por pequenos adereços que vão surgindo: primeiros os Horcruxes, agora os Deathly Hallows. Na realidade, Potter e Voldemort poderiam ter que coleccionar uma quantidade infinita de pequenos objectos antes de se enfrentarem, mas a realidade é que tanto atraso no seu confronto apenas torna a experiência desinteressante para quem não for um grande entusiasta.

Depois existem as semelhanças com a série ‘Lord of the Rings’ na recta final desta narrativa. Primeiro, o formato “on the Road” desta nova história, que vem importado do universo do Tolkien mas que carece da sua verdadeira razão de ser. As personagens de ‘LOTR’ percorriam mundos diferentes que eram cativantes por si próprios. Potter e os seus amigos vagueiam por lugares variados e conhecem uma série de personagens, mas estes novas adições nunca são, por si próprias, relevantes ou criativas. E depois vem o problema dos Horcruxes. Para derrotar Voldemort, Potter tem de reunir todos estes artefactos, que são quase impossíveis de destruir e que levam quem os detém à ira e derradeiramente à loucura. Falta apenas Potter acariciar o colar com que anda no filme e dizer “My Precious…”.

‘HP7’ sucumbe também perante o que já são convenções narrativas da série. Harry Potter, Hermione Granger e Ron Weasley são personagens estanques, e o relacionamento entre eles tem vindo a evoluir cada vez menos, atraiçoando a suposta densidade dramática que se pretendia para a luta final. Se Emma Watson e Ruper Grint vão melhorando como actores, há que notar que Daniel Radcliffe nem por isso, tendo alguns momentos em que faz recorda ar emoção pouco convincente de Hayden Christensen como Luke Skywalker – de notar a sequência onde Potter e Hermione dançam ao ritmo de Nick Cave, dois actores em registos antagónicos. Outra convenção narrativa da série tornou-se a morte de uma das personagens secundárias como forma de criar um final para cada capítulo – aqui com muito menos sentimento do que a partida de Dumbledore no filme anterior.

Este fim-de-semana estrearam em Portugal as duas sétimas entregas de filmes: ‘Saw 3d’ e ‘HP7’. Ambas irão certamente satisfazer os seus seguidores, mas quer uma quer outra parecem ter pouca noção que uma maioria do público irá considerar que já estão connosco à mais tempo do que são desejadas. Notem que ‘Star Wars’ teve 6 filmes e ‘Lord of the Rings’ teve 3… e têm um imaginário e uma história  muito mais rica do que o que JK Rowling tem para nos oferecer.

 

 

O Melhor: A fotografia de Eduardo Serra.

O Pior: O imaginário de Harry Potter está num limbo.

 A Base: Harry Potter 7′ é um filme tecnicamente e artisticamente rico, mas que parece um capítulo redundante de uma história que já tem pouco para dizer. 5/10

José Pedro Lopes 

Últimas