
Depois de desvendarem o desaparecimento de Harriet Vanger, de impedirem Martin Vanger de matar mais mulheres, e de terem denuciado Hans-Erik Wennerström como um corrupto e traficante de armas, Lisbeth Salander e Mikael “Super” Blomkvist estão de volta, no segundo filme da saga Millenium que adapta o livro homónimo de Stieg Larsson.
Desta vez os dois vão ver-se envolvidos na rota de traficantes de mulheres, ainda que haja ligações a personagens passadas que conhecemos no primeiro filme, como o “tutor” de Lisbeth, o “porco violador” Bjurman.
Só que desta vez, e em vez de ser Blomkvist a vítima de uma cabala, o protagonismo passa para Lisbeth, que terá de provar que não é ela a responsável por uma série de assassinatos.
Ao ter sido construído para ser uma mini-série para TV, “A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” sofre logo no início os efeitos do orçamento mais curto, em relação às necessidades que o livro impunha. Isso nota-se logo no início onde diversas sequências de acção e parte da história passada nas Caraíbas é eliminada. Tendo lido os livros da saga, denota-se assim uma maior distância neste trabalho que no primeiro. Isso não torna o filme fraco, mas obviamente que comparativamente ao trabalho original ele fica muito, mas muito mais distante.
Para além disso há relações muito pouco exploradas. Uma das coisas que menos gostei é a forma displicente como a relação de Blomkvist e a sua parceira na Millenium, Erika Berger, se desenvolve. No filme eles literalmente tem sexo ocasional. No livro essa relação é tão profunda que nem conseguimos bem condenar o que é condenável moralmente.
Blomkvist, sofre com isso. Lisbeth nem tanto. Aliás, os filmes da saga Millenium tem sido muito mais orientados para a heroína que para o Super Blomkvist. Neste segundo capítulo isso ainda se nota mais. Para tal também contribui o papel dos actores. Michael Nyqvist é um actor que consegue criar um Blomkvist sólido, mas não atinge a dimensão da sua personagem no livro. Noomi Rapace, pelo contrário, pega na sua Lisbeth e cria uma das melhores personagens femininas da história do cinema contemporâneo. Lisbeth é genial e, com os seus actos neste segundo capítulo, transformou-se num ícone.
No que toca a um dos elementos mais importantes neste género de thrillers policias/jornalísticos, os vilões, eles continuam a ser um pouco cliché, mas desta feita, o gigante louro Ronald Niedermann consegue dar um carisma único à obra. E raramente abre a boca. Fá-lo apenas com olhares ou atitudes.
Bjurman (Peter Andersson) continua brilhante e Zala, um gansgster que conhecemos melhor do que achamos inicialmente, tem a força suficiente para nos prender.
Mas não haja ilusões. Se “Os Homens que odeiam as Mulheres” era uma óptima adaptação do trabalho original, este “A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” fica um pouco aquém das expectativas. Talvez não seja afinal uma ideia tão má o remake americano da saga que está em preparação. Ainda que saiba perfeitamente que dificilmente veremos numa tela americana Lisbeth a ter sexo com outra mulher da maneira que se vê nesta obra.
Daniel Alfredson, o cineasta que explodiu para a fama com “Let The Right One In”, consegue assim um trabalho interessante, mas inferior ao conseguido no primeiro filme. O orçamento não é a única razão. O filme demora a carburar e só na recta final realmente nos empolgamos com o que se passa.
Um último destaque para a presença do pugilista Paolo Roberto como ele próprio. Para quem conhece o mundo do boxe, é muito interessante ver a sua participação.
O Melhor: Noomi Rapace e a sua Lisbeth Salander, icónica
O Pior: Demasiados cortes da obra original para este filme
| “A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” fica um pouco aquém das expectativas. ….6/10 |

