‘Flickan som lekte med elden’ (Millenium 2 – A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Depois de desvendarem o desaparecimento de Harriet Vanger, de impedirem Martin Vanger de matar mais mulheres, e de terem denuciado Hans-Erik Wennerström como um corrupto e traficante de armas, Lisbeth Salander e Mikael “Super” Blomkvist estão de volta, no segundo filme da saga Millenium que adapta o livro homónimo de Stieg Larsson.

Desta vez os dois vão ver-se envolvidos na rota de traficantes de mulheres, ainda que haja ligações a personagens passadas que conhecemos no primeiro filme, como o “tutor” de Lisbeth, o “porco violador” Bjurman.

Só que desta vez, e em vez de ser Blomkvist a vítima de uma cabala, o protagonismo passa para Lisbeth, que terá de provar que não é ela a responsável por uma série de assassinatos.

Ao ter sido construído para ser uma mini-série para TV, “A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” sofre logo no início os efeitos do orçamento mais curto, em relação às necessidades que o livro impunha.  Isso nota-se logo no início onde diversas sequências de acção e parte da história passada nas Caraíbas é eliminada. Tendo lido os livros da saga, denota-se assim uma maior distância neste trabalho que no primeiro. Isso não torna o filme fraco, mas obviamente que comparativamente ao trabalho original ele fica muito, mas muito mais distante.

Para além disso há relações muito pouco exploradas. Uma das coisas que menos gostei é a forma displicente como a relação de Blomkvist e a sua parceira na Millenium, Erika Berger, se desenvolve. No filme eles literalmente tem sexo ocasional. No livro essa relação é tão profunda que nem conseguimos bem condenar o que é condenável moralmente.

Blomkvist, sofre com isso. Lisbeth nem tanto. Aliás, os filmes da saga Millenium tem sido muito mais orientados para a heroína que para o Super Blomkvist. Neste segundo capítulo isso ainda se nota mais. Para tal também contribui o papel dos actores. Michael Nyqvist é um actor que consegue criar um Blomkvist sólido, mas não atinge a dimensão da sua personagem no livro. Noomi Rapace, pelo contrário, pega na sua Lisbeth e cria uma das melhores personagens femininas da história do cinema contemporâneo. Lisbeth é genial e, com os seus actos neste segundo capítulo, transformou-se num ícone.

No que toca a um dos elementos mais importantes neste género de thrillers policias/jornalísticos, os vilões, eles continuam a ser um pouco cliché, mas desta feita, o gigante louro Ronald Niedermann consegue dar um carisma único à obra. E raramente abre a boca. Fá-lo apenas com olhares ou atitudes.

Bjurman (Peter Andersson) continua brilhante e Zala, um gansgster que conhecemos melhor do que achamos inicialmente, tem a força suficiente para nos prender.

Mas não haja ilusões. Se “Os Homens que odeiam as Mulheres” era uma óptima adaptação do trabalho original, este A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” fica um pouco aquém das expectativas. Talvez não seja afinal uma ideia tão má o remake americano da saga que está em preparação. Ainda que saiba perfeitamente que dificilmente veremos numa tela americana Lisbeth a ter sexo com outra mulher da maneira que se vê nesta obra.

Daniel Alfredson, o cineasta que explodiu para a fama com “Let The Right One In”, consegue assim um trabalho interessante, mas inferior ao conseguido no primeiro filme. O orçamento não é a única razão. O filme demora a carburar e só na recta final realmente nos empolgamos com o que se passa.

Um último destaque para a presença do pugilista Paolo Roberto como ele próprio. Para quem conhece o mundo do boxe, é muito interessante ver a sua participação.

 

O Melhor: Noomi Rapace e a sua Lisbeth Salander, icónica

O Pior: Demasiados cortes da obra original para este filme


A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” fica um pouco aquém das expectativas. ….6/10

Jorge Pereira

Últimas