No filme, premiado no início do ano em Sundance, seguimos um designer de renome, Leonardo (Rafael Spregelburd), que vive na Casa Curutchet, a única desenhada na América Latina pelo renomado franco-suiço Le Corbusier. Quando Víctor (Daniel Aráoz), um vendedor rústico de carros usados, decide fazer uma janela num espaço contíguo à casa Curutchet, para como ele diz “apanhar uns raios de sol”, Leonardo e a sua esposa estão dispostos a tudo para travar “essa invasão da privacidade”.
A partir desta simples premissa temos um filme marcante, mas socialmente relevante, pois uma parede não separa apenas duas pessoas, separa um estatuto, uma força, uma maneira de ver. É que nem se trata da mais básica das guerras de classes, mas antes um exercício de snobismo de Leonardo, um homem de classa média alta, com um “homem das cavernas”, como a esposa de Leonardo tantas vezes refere.
E mesmo os intentos mais civilizacionais de Victor, não demovem Leonardo de o rebaixar constantemente, normalmente de forma cobarde e nas suas costas, pois coragem (ou cojones) é o que lhe falta. No fundo, esta é uma personagem com tiques fascistas, e que certamente não desgostava que as classes mais baixas (ou menos cultas) desaparecessem do mapa.
No final, um tremendo amargo de boca fica bem exposto, com a conclusão do filme de forma bem cruel, como se com os eventos finais e uma janela tapada, se tapasse uma classe que se despreza e nem se quer ver… 8/10
Jorge Pereira

