”Por tu culpa’ por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Se têm desejos em ter um filho brevemente, então “Por Tu Culpa” é um filme definitivamente a ter em conta. O filme acompanha, num estilo muito real, Julieta (Erica Rivas), uma mãe que tem de lidar com as suas crianças enquanto tenta trabalhar. As crianças, de 10 e 2 anos, andam pela casa a brincar, requerem constantemente a atenção da mãe, e guerreiam, como tantas outras, para brincarem com este ou aquele brinquedo. A mãe, coitada, lá vai tentando continuar o seu trabalho online, mas parece impossível, e passados alguns minutos quase que apetece ao espectador entrar naquela casa, obrigar tudo a ir já para a cama sem jantar, e ver se deixam a mulher em paz.

 

Com o marido (Carlos Portaluppi) ausente, o peso sobre Julieta é gigantesco, e numa quezília banal, a criança mais nova cai e aleija-se. Imediatamente Julieta pega nos filhos e leva-os ao Hospital, temendo algum tipo de traumatismo craniano no seu rebento mais jovem.  Quando chegam ao local, denota-se nesta mulher um cansaço latente, visível nos seus olhos e feições, que demonstra bem as dificuldades que existem em criar duas crianças hiper-activas e manter um trabalho – tendo em conta que o pai das crianças aparenta estar muitas vezes em viagem. É no hospital que começam a desconfiar que Julieta maltrata os filhos, ficando então o espectador numa situação de espanto, mas não chocado com a acusação. Será que nos escapou algo nas imagens que vimos anteriormente?

Realizado com mestria e bastante complexidade por Anahí Berneri, e filmado com o foco nas personagens, esta intensa obra argentina leva a várias questões e dúvidas no espectador que dão muito que pensar.

O uso de close-ups constantes, e uma “banda-sonora” que transmite diversos sons, quer corporais (respiração, etc) das personagens, até a barulhos de fundo, dão uma intensidade e sensação de preocupação constante durante toda a duração da fita.

E quando o marido entra em cena, então ainda ficamos mais na dúvida sobre a questão primordial da obra. Houve mesmo maus tratos e negligência? Podemos nós perder a perspectiva das coisas no meio do caos psicológico? Será que existe maior complexidade nas coisas que achávamos ser senso comum e entendíamos de caras?

Estas são muitas das questões que a obra coloca, e por desafiar o pré-estabelecido e os nossos sentidos, “Por Tu Culpa” acaba por ser uma pérola do cinema em 2010.
A não perder, se um dia lhe puderem por a vista em cima…9/10

Jorge Pereira

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