‘Vodka Lemon’ por Cátia Cóias

(Fotos: Divulgação)

“Vodka Lemon” (2003 ) trata-se de uma co-produção Arménia-Francesa, Italiana e Suíça dirigida pelo realizador arménio Hiner Saleem. Esta, espelha a realidade pós-soviética de uma  aldeia rural da actual República da Arménia (que certamente será uma réplica de muitas outras)  que, após a declaração de independência  da  USSR proclamada em 1991, tenta debilmente sobreviver. Ainda que afastada das politicas económico – comunistas, vive o conceito de “globalização” como  uma miragem ainda muito gelada e turva e, num estado de alienação total. Ali tudo se vende mas pouco ou nada se compra: pianos, roupeiros, malas…o desespero não poupa ninguém e vê com maus olhos a apropriação material por razões “meramente” emocionais. Uma das personagens acaba inclusive por desabafar : “Before the Russians left we didn’t have our freedom, but we had everything else”.

Hamo (Romik Avinian), a personagem central, um  viúvo que vai sobrevivendo (mal) com os  10 dólares de reforma, é visto no povoado como uma  espécie de patriarca . Hamo possui dois filhos: kamo, emigrado em França, e em quem deposita toda a esperança de um futuro melhor (que não chega nunca), e um  segundo filho ,desempregado, que chega aceitar a troca do casamento da sua filha por dinheiro e um falso emprego na cidade.

Neste clima de desespero, consegue no entanto ainda haver espaço para uma bela história de amor ,entre Hamo e Nina (uma bela viúva), que vai crescendo entre as viagens fortuitas resultantes das visitas diárias  de ambos ao cemitério.

Pelo meio ocorrem uma série de situações hilariantes, desde  Hamo que abre o filme fazendo-se transportar na sua própria cama,  ao bar de vodka improvisado e sem janelas em pleno  ambiente inóspito e gelado de neve , à espera paciente de todos os habitantes pela chegada da carta do filho de Hamo, entre muitas outras situações assinaláveis.

Bela é também a imagem de um  cavaleiro que causando uma certa estranheza surge ocasionalmente  na tela, desconectado  do contexto narrativo do momento e,  carregando consigo interpretações de ordem politica e/ou espiritual nada inocentes,  mas que deixo ao cargo do espectador….
 
Em suma, este é um filme extraordinário,  subtilmente inundado de reflexões sócio-políticas e  uma espécie de Kusturica sem pressa, habitando uma Arménia gelada, pobre e totalmente isolada da aldeia dita global:“why is this called vodka lemon when it tastes like almond?”

“Because this is Armenia!”… 8/10

Cátia Cóias

Últimas