Foi sobre a capa da comédia teatral, mas com uma execução cinematográfica indiscutível, que “RSVP (Please Respond)” se tornou um dos favoritos do público do Festival de Antália.
Um sala, três pessoas (um casal prestes a casar e o padrinho), e um enredo movido a diálogos acusatórios sustentam este pequeno exercício sobre amores e desamores de um trio de personagens à beira de um ataque de nervos.
No centro de tudo está Mert ( o sensacional Cem Yiğit Üzümoğlu, de “Black Nights” e do fenómeno da Netflix “Rancor”), o padrinho, que um pouco antes da cerimónia coloca em cima da mesa a questão se os os dois pombinhos (Ushan Çakır e Melisa Şenolsun) alguma vez foram adúlteros. O que vem a seguir a esta pergunta, que se revela retórica, é uma enxurrada de pequenas e grandes mentiras que revelam uma sociedade que condiciona o indivíduo, e, como este, dentro da sua capa liberal, mantém em si muitos elementos conservadores sistémicos, que tanto demonstram misoginia como homofobia.
Na verdade, apesar de se apresentar como bastante liberal na sua proposta temática em território turco, “RSVP (Please Respond)” esconde nele também uma forte atitude conservadora, a começar pela questão da traição, como um elemento primordial para o enxovalhamento de todos os que estão em cena. E embora se questione com alguma acutilância e ferocidade o que é um homem e uma mulher nos tempos que correm, especialmente numa classe média instruída que viaja frequentemente ao estrangeiro (todas as personagens estão no ramo da aviação), o filme tropeça muitas vezes em si próprio, especialmente quando as personagens fragilizadas pelos segredos revelados servem de objeto, quais marionetes, para fazer o espectador rir.
Tudo isso não invalida o facto deste ser um filme arrojado, dado o local onde estreia e o público a que se destina (o turco), mas ainda assim, “RSVP (Please Respond)” não é afiado e certeiro como sátira à moral e aos bons costumes como pensa que é, e no debate ou abate dos lugares destinados a homens e mulheres na sociedade.
Ainda assim, İsmet Kurtuluş e Kaan Arıcı são cineastas que devem ser seguidos com atenção, nem que seja por mostrarem valor num sentido completamente oposto ao que a cinematografia turca demonstra em termos internacionais. É que depois de Nuri Bilge Ceylan e Emin Alper ganharem os holofotes e a atenção dos festivais internacionais de cinema de autor, a maioria do cinema turco que chegou a esses certames autorais nunca foge de um modelo dramático e cinematográfico que se tornou um clichê por si só. E nesse aspeto, apesar de não serem completamente conseguidos, quer este filme como “Iguana Tókyo” rompem com essa tradição.




















