Não há volta a dar e não é estratégia de marketing panfletário: nos últimos anos, algumas das propostas de cinema de horror mais fascinantes e refrescantes têm vindo de extratos demográficos que, conta a História do Cinema, não cimentaram de forma algumas as regras, códigos e o fascínio que se criou sobre o género do horror.
Se na vertente masculina, Jordan Peele revelou ser o novo peso pesado do cinema de horror vindo da esfera afroamericana, como “Get Out” e “Us” confirmaram, em paralelo tem surgido uma nova armada no feminino que tem produzido alguns dos melhor exemplos do cinema de horror atual. E Jennifer Kent (O Senhor Babadook), as irmãs Soska (Rabid), Julia Ducournau (Grave; Titane), Coralie Fargeat (Revenge) e Nia daCosta (Candyman) ganham agora a companhia de Charlotte Colbert, que com o seu drama de horror “She Will” não demonstra apenas o sinal dos tempos de ativismo, mas revela nesse processo uma segurança ímpar no domínio de câmara e uma maturidade estética, colocando o seu filme a viver da atmosfera e não dos sustos imediatos que o cinema comercial continua a preferir.
E não é à toa que o primeiro nome que aparece nos créditos deste “She Will” é não menos que Dario Argento, mestre do terror, que aqui joga o papel de padrinho introdutório de Charlotte com um “Dario Argento presents”. E se muitas vezes, pela ação, visual, ambiente e personagens, o cinema recente de Peter Strickland vem à cabeça, há algo de terrivelmente contemporâneo, político e social, que deixa bem marcado o nome de Charlotte Colbert em todas as frames do seu filme, o qual mostra que apesar das feridas históricas estarem cicatrizadas, não foram esquecidas.
Por isso mesmo, o enredo de “She Will” – que vai da queima das bruxas no passado a agressões sexuais nos tempos mais recentes – une em si o terreno e o sobrenatural, tudo a partir da história de uma atriz famosa, Veronica Ghent (Alice Krige), que já idosa e após uma mastectomia parte com a sua cuidadora para um retiro espiritual numa localidade remota.
“She Will” não é de todo um filme de “jump scares” ou “cheap thrills”, preferindo antes, através do seu visual e arranjo sonoro, com a direção de fotografia e montagem a terem uma importância vital, criar um conto totalmente atmosférico de vingança pós #Me Too, daqueles que unem passado e presente, terreno e espiritual, e que nos conquistam imediatamente.
Uma estreia impactante de Charlotte Colbert.



















