Quase trinta anos depois do filme original (1992), “Candyman” está de regresso aos cinemas com a sua lâmina de crítica social e racial mais afiada que nunca, mantendo no seu ADN o tom slasher assente numa lenda urbana muitas vezes over-the-top, mas desta vez muito mais acutilante ao abordar questões como a gentrificação e o terror da experiência negra de forma muito mais acutilante e direta.

É um trabalho que vem na sequência de todo um conjunto de outros, no cinema e TV (de “Get Out” a “Us”, não esquecendo “Antebellum” ou as séries “Them” e “Underground Railroad”), agora preparado para invadir salas de cinema em tempos pós-pandémicos e no auge da cultura woke, onde o racismo em desconstrução é o cerne de todas as questões.

Continuação, muitos anos depois do primeiro filme, com ligação a ele, Nia DaCosta, associada ao produtor Jordan Peele, colocam em Yahya Abdul-Mateen II (The Trial of the Chicago 7) o fardo de transportar o misticismo de “Candyman” para os tempos modernos. Aqui, Yahya é uma velha promessa no mundo das artes de Chicago que teima em explodir. Será no complexo habitacional de Cabrini-Green, onde muito do “Candyman” original decorreu, que ele vai encontrar inspiração para dar o salto que lhe faltava no mundo artístico, tentando deixar de lado a figura de número 2 na relação amorosa que tem com uma conhecida galerista (Teyonah Parris).

Movimentando-se entre a sátira social à gentrificação e ao mundo da arte, com muita autocrítica incluída, até na própria forma de encarar as novas formas de masculinidade, Nia DaCosta vai guiando o seu filme por terreno sangrento de forma eficaz e descomplexada, cimentando no texto e atmosfera – sempre sombria – questões raciais que nunca são tratadas como meros artifícios históricos, mas usados para mostrar como esse fardo do passado afeta as gerações do presente. Nesse aspecto, “Candyman” funciona como uma espécie de Freddy Krueger que carrega em si a podridão de uma História de violência contra os negros, com referências explícitas aos linchamentos do passado e aos problemas mais recentes com as autoridades policiais. 

E ao fazer isso, ligando passado e presente, onde até se elimina o típico recontar do antigamente com recurso a flashbacks, preferindo-se antes um teatro de sombras animado, que  “Candyman” chega mesmo a piscar o olho ao género dos “super (anti)-heróis” com poderes sobrenaturais e que assentam o modus operandis num ato de crime e castigo, ação/reacção, sem misericórdia ou benevolência. 

Claro está que esta dimensão política e social escancarada irá irritar muitos dos que acham que a saga deveria manter-se orientada para o entretenimento (e sustos básicos), mas convém lembrar que estes temas, ainda que menos intrusivos ou militantes, já existiam no primeiro filme e foram apenas recalibrados para novos tempos onde a imparcialidade e a falta de opinião já são em si um ato político que, mesmo inconsciente, serve para validar tudo o que está errado há décadas.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
candyman-regressa-com-a-lamina-de-critica-social-e-racial-mais-afiada-que-nuncaA lâmina de crítica social e racial de "Candyman" está mais afiada que nunca