Alérgico aos subsídios para o cinema, António Pedro Vasconcelos tem traçado o seu caminho no cinema português com limitações orçamentais naturais, e a verdade é que não existem muitos cineastas por cá que desde 1999 tenham lançado 8 longas-metragens no cinema. 

E se em “Amor Impossível”, facilmente o seu melhor filme no novo milénio, essas limitações não enchiam o ecrã, em “Km 224” elas chocam de frente com o espetador, ao ponto de sugerirem um desmazelo que faz sentir uma ausência assutadora de ideias. E mesmo as constrições impostas pelos magros orçamentos a que já nos habituámos no cinema português não explicam tudo, ou não fosse esse desleixo um dos atributos de um guião que nunca vai além dos chavões de uma classe média lisboeta, ou até mesmo da performance do elenco (em particular os secundários): feitas as contas, ficam as dúvidas se estamos sequer perante um “Marriage Story” ou “Kramer Vs Kramer” de segunda linha.

História de divórcio, novas oportunidades e dilemas, recheada de atritos e malapatas nas crianças, “Km 224” coloca em cena um casal separado prestes a entrar num divórcio litigioso quando surge uma nova oportunidade profissional em Sevilha para Cláudia, (Ana Varela, segura no seu papel). A situação acaba por se revelar como o grande motivo de conflito: Cláudia pleneia levar os filhos para a nova cidade e para esta nova etapa, o que choca com os planos de Mário (Pedro Hossi, numa registo já mais intermitente), o pai dos seus filhos e um arquiteto agarrado à sua carreira, empenhado a resconstruir o seu ninho.

O guião, assinado por Filipa Martins e António-Pedro Vasconcelos, faz questão de nos facilitar a vida ao apresentar um casal nos antípodas do ser e agir, daqueles que até custa crer que alguma vez estiveram juntos além de um “fling”(é aquela treta que os se opostos atraem, o que como bem se vê não resulta lá muito bem em lado nenhum). E embora ambos sejam atravessados por uma certa ambiguidade e saibam exprimir de igual modo ternura e amor pelos filhos (o que afasta à partida qualquer cenário de herói e vilão), não há aqui nada que consiga escapar à mediocridade dos processos e à pobreza do conteúdo, ficando o espectador arredado de qualquer arrebatamento. 

E mesmo quando alguns vestígios de empatia e frescura surgem fora da esfera dos protagonistas, como acontece com a introdução da personagem de Sara (Joana Africano), ou no campo da comédia, com uma advogada fã de pilates (Susana Arraiais), Vasconcelos mostra desinteresse em qualquer dispersão, tirando assim da mesa de jogo um trunfo que fazia de alguma forma esquecer toda a fragilidade à volta do seu núcleo.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
km-224-cenas-de-um-divorcioUma acanhada “tradução” visual de uma história que nunca deixa de ser um “Kramer Vs Kramer” ou “Marriage Story” de segunda linha