Curiosa e merecedora de algum fascínio, a abordagem que António Pedro Vasconcelos faz de um caso de polícia daqueles que enchem as histéricas capas dos tablóides nacionais. Partindo da investigação por parte de dois agentes (Soraia Chaves e Ricardo Pereira), o realizador português entra num estudo do amor impossível em território adolescente, agarrando em referências clássicas como Romeu e Julieta ou o Monte dos Vendavais para contar-nos, via um diário, a história de Cristina (Victória Guerra) e Tiago (José Mata).
Compreenda-se que a clássica inadaptação e rebeldia na transição para a idade a adulta é frequentemente representada no cinema. Este ano até tivemos no IndieLisboa Uma Rapariga da Sua Idade, um exemplo dessa desadaptação, que poderia ter sido marcante não fosse o facto de ser uma daquelas curtas enfiadas no corpo de uma longa-metragem, o que tornou tudo em algo profundamente desequilibrado. Aqui, se existe um particular desequilíbrio, é no interesse das duas histórias paralelas. Se começamos com os polícias a investigar o desaparecimento da miúda, a curto prazo estes passam para segundo plano e só queremos mesmo ver mais e mais sobre a paixão juvenil arrebatadora que pode ter chegado ao fim de forma escabrosa.
Nisto, a grande força motriz é mesmo Victória Guerra, uma jovem que apresenta uma intensidade dramática e uma garra que há muito não se via no cinema de Vasconcelos. José Mata acompanha-a de forma consistente nesta viagem entre o céu e o inferno, e convém mencionar que tanto Soraia Chaves como Ricardo Pereira servem o propósito em ser o nosso elo de ligação ao par de amantes. E sim, palmas também para o argumentista Tiago Santos, isto depois dos safanões bem merecidos que levou após reescrever o Leão da Estrela*. Neste caso, o guião encontra-se bem estruturado e recheado de pequenas pérolas que nos fazem até esquecer a habitual condescendência com que se trata muito do cinema nacional (se é português, tens de apoiar porque sim!), o qual quando pisa território comercial parece preferir uma linguagem profundamente televisiva (algo que aqui não acontece).
Com isto, Amor Impossível não é de todo um filme perfeito, mas facilmente é do melhor que o já referido cinema comercial nacional nos deu nos últimos anos. E mesmo que não saibamos «distinguir um travelling de um ovo estrelado», podemos dizer com à vontade que este é um dos melhores trabalhos de APV desde os anos 80.















