É absolutamente magistral a viagem ao passado e presente da Sérvia que a cineasta Nataša Urban, radicada na Noruega, executa em “The Eclipse”, grande vencedor do CPH: DOX este ano.

E não há um, mas dois eclipses neste documentário (1961 e 1999), os quais servem de alegoria à luz e escuridão, num jogo de espelhos de alta carga poética, política e filosófica, sobre um território que passou de vítima na Segunda Guerra Mundial, sofrendo massacres na mão dos croatas Ustaša, para um perpetrador genocida de bósnios e kosovares nos tempos de Slobodan Milošević.

Todos estes elementos coletivos chegam até nós através de um formato analógico (16mm) e a ajuda de familiares e amigos da cineasta, que contam algumas histórias e anedotas sobre os tempos idos, surgindo pelo meio alguns intertítulos que contextualizam os factos históricos abordados. 

São as avós de Nataša que nos recordam a pobreza e atrocidades que testemunharam durante a Segunda Guerra Mundial (histórias semelhantes às que ouvimos em “Landscapes of Resistance”, enquanto a mãe fala dos tempos mais recentes de ascensão do nacionalismo que presenciou (no trabalho), e o pai revela – através do seu diário – especificidades muito particulares sobre o conflito. 

A isto, a história de um hibisco que foi deixado para trás num prédio estatal bombardeado pela NATO e outros dramas maiores, como o de um croata espancado por ser dessa nacionalidade, mas também por não o ser suficientemente (era casado com uma sérvia), acrescentam doses de humanidade, mas também da escuridão vinda das trevas do nacionalismo.

E voltando aos eclipses, o enquadramento dado aos dois contempla ainda uma análise à forma como o poder instituído, nas diferentes épocas, controla a narrativa que chegava às suas gentes. Se o primeiro foi descrito como um fenómeno único na vida que precisava ser visto com as devidas medidas de precaução, o segundo foi utilizado como um teste de obediência pública, a meio dos bombardeamentos da NATO ao país.

No final, Nataša Urban faz um filme-ensaio impecavelmente lírico e avassalador. Uma radiografia elevada que conta a história recente do seu país e os seus traumas.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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