Durante 10 anos, a realizadora Marta Popivoda e Ana Vujanović registaram as palavras de Sonja, uma mulher com 97 anos que vive presentemente num pequeno apartamento em Belgrado com o marido e o gato, mas que foi uma das primeiras mulheres a se juntar ao movimento de resistência partisan na Jugoslávia que no final dos anos 1930 e em 1941 lutou na Sérvia contra a ocupação nazi.
O filme de Marta Popivoda, na competição ao Tigre de Ouro no Festival de Roterdão, joga entre as palavras e as paisagens, num registo de recolha da memória, para depois relacionar o combate de Sonja ao longo da sua vida com um novo renascimento dos movimentos da extrema-direita na Europa.
Sobrevivente do campo de concentração de Banjica, onde foi interrogada e espancada, e posteriormente de Auschwitz, este antiga resistente comunista vai contando com um notório orgulho triunfante os relatos dramáticos de uma vida, que a realizadora Marta Popivoda coloca em cena com um sentido de missão orientada para o ativismo, mas igualmente como uma experimentação de formas e do aparato cinematográfico, onde não opta pela via mais banalizada do registo documental, recorrendo a cabeças falantes e reencenações que transformassem este num objeto de carregado de didatismo ou de entretenimento exploratório camuflado de informação.
Pelo contrário, Popivoda opta por filmar os espaço narradas por Sonja, mas dando-lhes uma textura reflexiva conduzida por uma observação visual que nunca se torna mais imponente ou distrativa que as palavras agarradas a ela, sejam essas imagens a de um campo de papoilas que balançam ao som de uma música da época sobre os valentes partisans, seja através das cartas que trocou com Sonja ao longo dos 10 anos, oonde as mudanças na Europa cada vez mais capitalista representam igualmente desafios para a velha comunista e para todos.
No final, temos um trabalho que se expande na forma e conteúdo, onde a força das palavras é acompanhada por imagens que se dissolvem da memória, até porque as histórias ficam, mas os detalhes sobre o espaço onde ocorreram vão-se. E fica também uma espécie de mea culpa da realizadora, que ao trocar a Sérvia pela Alemanha regista um pesar de abandono da luta – de alguma forma – contra o renascer do fascismo no seu país, embora todo o seu projeto e as palavras da protagonista sejam um reflexo esperançoso e de resiliência de que onde quer que o fascismo ganhe força, existirão sempre Sonjas para o combater.
(Crítica originalmente escrita em fevereiro de 2021)



















