Habituado a polémicas desde que abordou a condição da mulher em “678”, filme que seguia a problemática do assédio sexual no Egito, e o confronto de manifestantes e apoiantes da Irmandade Muçulmana nas ruas do Cairo no intenso “Clash”, Mohamed Diab volta a território controverso com “Amira”, filme que abandona o Cairo e parte para a Cijordânia para abordar o facto real de crianças palestinas concebidas através de esperma contrabandeado a partir de detidos em prisões de Israel.

O centro das atenções é um tridente familiar em que o patriarca, Nuwar (Ali Suliman de “The Attack”), é um preso político (que os israelitas definem como terroristas). A primeira cena do filme coloca-nos no olho do furacão, com a sua esposa (Saba Mubarak que vimos recentemente em “Daughters of Abdul-Rahman”) e a filha (Tara Abboud) a visitarem-no na prisão. É aí que Nuwar pede à esposa para ter um segundo filho, o qual – tal como Amira – seria concebido através do contrabando do seu esperma para fora da cadeia. A partir daí e da aceitação, a custo, da esposa, uma série de descobertas vão abalar a estrutura familiar, particularmente Amira, mas igualmente das autoridades de resistência da Palestina.

Mohamed Diab é perito em transformar os seus dramas repletos de crítica social e política em thrillers intensos e imprevisíveis que questionam não apenas eticamente e moralmente as suas personagens, mas igualmente o coletivo social. Em “Amira” não é diferente, estranhando-se mesmo os ataques cerrados que a obra tem sofrido, especialmente na questão da “insensibilidade” para com os presos políticos da Palestina e a sua causa.

Não só “Amira” é um murro no estômago (ou um pontapé na face) do espectador na forma como coloca em cena diversos dilemas morais (onde não falha novamente o papel da mulher), como mais uma vez reflete de forma bem expressiva a opressão a que o povo da Palestina está submetido diariamente. E nem é preciso entrar nos meandros da justiça e da vida prisional de Nuwar para perceber isso, bastando uma belíssima cena em que Amira e um amigo, sentados no seu território, são observados por um drone e parodiam a situação com clara ligação à grande paixão da jovem, que a é a fotografia. [ver imagem de topo]

Tenso, doloroso e extremamente incisivo na abordagem, onde os presos políticos não são rebaixados, mas estão longe da “santidade” e são homens propensos a errar como qualquer um, “Amira” não merecia de todo o criticismo de que tem sido alvo.

Na verdade, é um bom filme, quer dentro quer fora de qualquer causa, e está filmado no estilo frenético e angustiante (fotografia e montagem orientadas para o realismo) que Diab já nos habituou, sem cedências panfletárias e sempre, mas sempre, carregado de humanidade, quer no olhar para as personagens e os seus de heroísmo, como também nos seus erros e imperfeições.

E a auxiliar o cineasta neste seu novo esforço encontramos um tridente de atores tremendamente eficaz, com destaque para a jovem Tara Abboud, presa em questões identitárias, muito bem acompanhada pela super expressiva Saba Mubarak (uma das melhores atrizes da região) e Ali Suliman, sempre apanhado de surpresa por conflitos e dilemas que transformam a sua existência.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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