Mohamed Diab, o homem que abalou o Egito e expôs no cinema o tabu do assédio sexual

(Fotos: Divulgação)

Hoje celebra-se o dia internacional da Mulher. Normalmente há muitos filmes que abordam, e estreiam nesta data, a condição da mulher na sociedade. Ainda no ano passado estreou «Igualdade de Sexos», mas este ano  (apesar de estrear um filme sobre uma grande mulher, Florbela Espanca ) nenhum filme foca diretamente a luta contra o desnível ainda existente entre sexos. Um dos cineastas que recentemente abordou a condição da mulher numa sociedade machista é Mohamed Diab, realizador  egípcio de «678», um filme que a Lusomundo detêm os direitos e que teria todo o nexo ter estreado nos nossos cinemas. 
 
«678», que passou por inúmeros festivais de cinema, segue a problemática do assédio sexual no Egito, um drama que afeta a população feminina em geral e que chegou mais ao conhecimento do público ocidental depois do caso que envolveu a jornalista da CBS, Lara Logan.
 
O c7nema entrevistou Diab, que nos confidenciou porque decidiu tocar neste tema tabu no Egito e como o seu filme contribuiu para mudar a mentalidade local.
 
Aqui ficam as suas palavras:

Como nasceu a ideia para o filme?
 
Há uns anos atrás vi uma notícia alarmante sobre a incidência de casos de assédio sexual no Egito. Foi incrível descobrir que um grupo de homens pode decidir unanimemente violar uma mulher. Isto despertou-me uma certa curiosidade que me levou a contactar com muitas raparigas que conhecia. Acabei por entrevistar centenas de mulheres e descobri muito daquilo que sofrem diariamente.
 
O assédio sexual é um grande problema no Egito?
 
Sim. O assédio sexual é um grande problema especialmente porque é um tema tabu e as pessoas não falam disso. As mulheres não o admitem, pois a sociedade culpa-as e usa isso contra a sua reputação. Os homens não são punidos por estes crimes porque as mulheres não falam disso. De acordo com as estatísticas, 83% das mulheres egípcias admitem que já tiveram uma experiencia de assédio sexual. Depois de apresentar o filme pelo mundo fora, descobri que não é um problema exclusivo ao Egito, mas algo que acontece a mulheres de todos os cantos do mundo.
 
Este é um filme de vingança contra os criminosos ou apenas uma chamada de atenção para a sociedade sobre este tema?
 
O «678» não é um filme de vingança, é um alerta. Ao fazer o filme eu procurei mostrar todos os lados do problema, que afeta mulheres de todos os extratos socioeconómicos e com religiões diversas. Também preocupei-me em entender o abusador.

Houve um caso muito famoso de abuso sexual no Egito. O caso da jornalista da CBS, Lara Logan, assediada durante as manifestações contra Mubarak. Não tem medo que esse caso e este filme deem uma imagem distorcida do Egito?
 
O filme foi lançado nas salas antes desse incidente. Este é um problema muito grande no Egito e se não resolvermos, vai ainda tornar-se pior. O filme é um alerta e se as pessoas não ouvirem e agirem contra isso, tudo vai ficar na mesma.

 
Como tem sido a reação do público e da crítica ao filme?
 
Como o tópico do filme é tão controverso, houve uma reação imediata do publico egípcio. Foram logo apresentadas duas queixas contra o filme ainda antes de ele estrear. Um deles declarava que eu dava uma má imagem do Egito. Porém, quando o filme realmente estreou, os homens riram-se porque para eles tudo era muito exagerado, mas no final as gargalhadas acabaram e eles abandonaram as salas e deixaram mais espaço para as mulheres. Teve realmente impacto em quem viu o filme, quer gostassem ou não gostassem da obra. Os homens entram muito na negação do problema e não gostam do filme, o que faz sentido poisnunca ouviram falar do assédio sexual porque as mulheres não falam disso. Por outro lado, as mulheres confessaram-se pessoalmente ou por email que experienciaram essa situação e muitas aproveitaram a estreia do filme para confrontar e contar aos seus maridos com a verdade. O número de casos reportados às autoridades no mês de estreia do filme foi igual ao valor que se tinha alcançado em um ano, o que me leva a pensar que a obra ajudou as mulheres a tomarem medidas legais contra os abusadores. Quer os críticos locais, quer os internacionais reagiram muito bem ao filme.

Tem outros projetos para o futuro?
 
Estou neste momento a trabalhar num projeto em torno dos eventos recentes no Egito e em particular, algo que irá atrair audiências internacionais.
 
Como vê o futura do cinema e dos cineastas no egito após a saída de Mubarak do poder?

Durante o regime de Mubarak, a censura cinematográfica proibia os cineastas de fazerem filmes onde se criticava o governo e a cena política do Egito.
 
Filmes que mostrassem injustiças eram censurados pois o governo não queria que as pessoas pensassem nos seus direitos humanos ou civis. Agora, os filmes vão poder abordar temas reais e os cineastas terão muito mais liberdade artística para trabalhar.

Tem algum projeto de sonho?

Fazer um grande filme que ultrapasse as fronteiras e aproxime as comunidades.

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