Voltando a pegar em “escandaleiras” dos bastidores do mundo dos negócios, onde famílias privilegiadas e ricas são confrontadas com crimes macabros, um pouco como o tinha feito em “Todo o Dinheiro do Mundo”, Ridley Scott apresenta em 2021 o seu segundo filme do ano (depois de “The Last Duel“), “Casa Gucci”, no qual acompanha a união de Patrizia Reggiani (Lady Gaga) e Maurizio Gucci (Adam Driver), bem como os bastidores ruinosos da gestão da famosa casa de moda, a qual acabaria por sair do controlo da família que lhe dá o nome.

Se o assassinato de Maurizio a mando de Patrizia, após o primeiro pedir o divórcio, tornou-se um fait divers para a imprensa e mundo da moda, Ridley pegou nele para entregar ao espectador um filme que até podia ter optado ser um “Padrinho” ou um “Succession”, mas que derradeiramente sente-se mais um Jersey Shore, onde impera o exagero e o overacting, sem nunca surgir um nível de crítica às rixas familiares, traições e mundo dos negócios que o pudesse levar para terrenos da farsa engenhosa.

Todo o filme parece equivocado no seu tom brejeiro, acentuado por atuações tão frágeis e exageradas como os sotaques e o trabalho de caracterização das personagens. Seja Lady Gaga, Al Pacino ou Jared Leto, todos parecem bonecos de cartão onde interessa mais fazer sobressair os seus maneirismos, repletos de estereótipos e clichés, do que motivações que se sintam orgânicas. E quando falamos de Adam Driver ou Jeremy Irons, estes parecem estar noutro filme que não o que estamos a ver, criando um resultado final de profundo desnivelamento.

Com a ação percorrida na história dos Gucci dos anos 70 aos 90, e com foco na articulação da relação entre Patrizia e Maurizio, Scott até começa bem, mostrando como eles se conheceram, juntaram-se e casaram contra os desejos e ambições da família do Gucci. É depois, quando entramos no terreno da intriga familiar, para controlo da empresa, que o descalabro progressivamente vai surgindo, algures entre a telenovela de luxo e a farsa falhada, com o cineasta a nunca acertar o passo, ritmo e até incisão que o guião de Becky Johnston e Roberto Bentivegna (baseado no livro de Sara Gay Forden) ofereceria. E quando chegamos aos anos 80, cabelos, roupas e a banda-sonora são o que nos levam para a época, como quem vai a uma festa temática e acha que os anos 80 eram mesmo assim.

Claro está que no meio disto tudo as gargalhadas surgem, como por exemplo em quase todos os momentos em que um Jared Leto irreconhecível preenche Paolo Gucci de forma inenarrável, ou Salma Hayek como uma cartomante, mas todas essas atuações parecem alojadas no filme como sketches individuais e não como complementos ao serviço de um enredo principal.

No final, e no meio de tanta desproporção e umas excessivas duas hora e meia de filme, só nos vem à cabeça a fala mais marcante de Paolo: “Boof-ah!”.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
casa-gucci-lady-gaga-e-adam-driver-entre-a-novela-de-luxo-e-a-farsa-falhadaUm filme que até podia ter optado ser um “Padrinho” ou um “Succession”, mas que derradeiramente sente-se mais um Jersey Shore, onde impera o exagero e o overacting