Na França do século XIV, Marguerite de Carrouges (Jodie Comer) foi violada pelo escudeiro Jacques Le Gris (Adam Driver), que tinha uma longa história de amizade e rivalidade com o marido de Marguerite, Jean de Carrouges (Matt Damon). Determinada em não ficar calada quanto a este ataque, Marguerite fez aquilo que nenhuma mulher ousava fazer: denunciar o seu violador e perseguir a justiça. Assim nasce uma espécie de heroína avant-la-lettre cujas ações têm hoje, na época do “Me Too” e do “Time’s Up”, um peso acrescido, e cuja história está evidentemente na ordem do dia, como uma espécie de preparação do terreno para a batalha (feminista).

Assinado por Ridley Scott, a partir de um argumento escrito por Ben Affleck, Matt Damon e Nicole Holofcener (convidada pela dupla para oferecer a sua visão do lado feminino da história), “O Último Duelo” conta uma narrativa que, em geral, todos conhecemos. A experiência de silenciamento das mulheres. A dúvida que se lança sobre as acusações de violação. O encobrimento dos crimes por parte de amigos influentes. As versões dos factos contraditórias. A vulnerabilidade e desproteção jurídica das mulheres. A justiça bíblica assente na máxima “um olho por um olho”. E, embora todo o dispositivo narrativo se divida no relato das três perspetivas em causa na história – a do marido, a do violador, e a da mulher –, esta é também uma narrativa que todos conhecemos por sabermos que, qualquer que seja o desfecho, será sempre um dos homens a sair “honrado”, tendo a mulher de lidar com as consequências do que for decidido por si. 

Por isso é claro que o verdadeiro duelo não é aquele travado entre os dois homens na arena pela honra da sua posição, mas antes a batalha entre as mulheres e uma sociedade que as objetualiza como propriedade – é esse o significado do grito denunciador de Marguerite. Scott foca bastante o seu olhar sobre a mecânica do poder e dos egos masculinos, criando uma sequência final de duelo absolutamente visceral. Mas a potência desse final depende sobretudo do facto de Marguerite, que Comer interpreta com uma subtileza em falta nas atuações masculinas, estar a assistir dentro da arena ao combate, sendo também a sua vida que está em risco.

Este não é um filme subtil, e alguns diálogos parecem mesmo deslocados do contexto histórico em que a ação decorre, de tal forma são copiados dos debates que hoje se travam em torno desta temática. Ainda assim, a intensidade da realização de Scott, assente que é em mecanismos e estilos canónicos, consegue fazer deste argumento um filme arrebatador e ao mesmo tempo totalmente convencional. O pior erro é mesmo o que Scott não deixa de mostrar, forçando imagens mais do que uma vez quando a palavra de Marguerite devia, mais do que nunca, ser prova suficiente. Aliás, o título do filme denuncia desde logo como o principal interesse continua a ser a perspetiva masculina do enredo, em detrimento da feminina.

Ao estilo de “Rashomon” (1950), o clássico de Kurosawa, ou até da série televisiva “The Affair”, ambos construídos sobre o mesmo artifício que repete determinadas cenas de perspetivas diferentes e acrescenta novas cenas de acordo com cada ponto de vista, “O Último Duelo” é um filme longo, frio e agressivo, como de resto já estamos habituados quando Scott está por detrás da câmara. Ainda assim, não se trata de uma obra maçadora porque a austeridade com que representa o mundo é facilmente compreendida como um esforço por autenticidade e “realismo”.

O filme insere-se no nicho de mercado que se tem formado em torno de histórias relacionadas com os atuais movimentos sociais e o clima que os rodeia, não sendo nem o que de pior já saiu dessa produção (“Bombshell”, de Jay Roach, é aqui o eleito) nem o melhor (“The Assistant”, de Kitty Green, reproduz cinematograficamente a experiência de predação e de silenciamento com enorme destreza). É uma adição calculada a esse catálogo, mas não o enriquece particularmente.

Pontuação Geral
Guilherme F. Alcobia
ultimo-duelo-e-a-preparacao-para-a-batalhaUm filme potente mas convencional, realista mas austero, assente nas preocupações sociais de hoje mas não muito habilidoso em perspetivá-las do ponto do vista que mais importa.