Depois da boa passagem por Cannes com “Os Cavalos de Deus” (2012) e da polémica em 2015 com o seu retrato da prostituição em Marrocos com “Muito Amadas”, Nabil Ayouch levou ao Festival de Cannes, em plena competição à Palma de Ouro, um filme centrado na cultura do hip hop que nunca consegue ser mais que um retrato curioso e simplório sobre uma nova geração que tem de lidar e lutar contra as tradições e o conservadorismo que colocam esta subcultura como uma importação bacoca do mundo ocidental.
Não é terreno novo, os caminhos que Nabil segue nesta história de um professor que vai lecionar e guiar jovens pelo hip hop em Sidi Moumen, subúrbio de Casablanca muitas vezes apelidado de “o Bronx de Marrocos“. A pobreza, as disfunções familiares, o desemprego e as poucas perspetivas de vida, no meio do tradicionalismo patriarcal, predominam numa região onde a juventude tem nas letras, no graffiti e na dança a forma artística de expor os seus problemas e obstáculos quotidianos.
A verdade é que, seja onde for, o rap tem sido utilizado como uma verdadeira potência de denúncia e requisição de condições melhores de vida. Isso já se viu em centenas de filmes norte-americanos e franceses, mas também em paisagens menos convencionais como a Palestina (vejam o documentário “Slingshot Hip Hop“, de 2008), a Gronelândia (“The Fight for Greenland“) ou a Turquia (o recente “When I’m Done Dying”, que viaja ao fictício bairro de Karacinar para representar várias áreas dominadas pelo crime, pobreza e drogas).
Se há surpresa nesta incursão de Nabil Ayouch é a forma crowd pleaser convencional que encontramos nele, o tipo de abordagem que estamos habituados a ver em subprodutos que entopem o streaming com mensagens de luta pessoal por perseguições de sonhos para escapar a pesadelos e destino traçados, e que passam pela arte de cantar e dançar.
Minado do início ao fim de performances musicais entre a ficção e o documentário, “Casablanca Beats” nunca consegue ser mais que um produto tardio, pouco envolvente, nada exuberante e incapaz de aprofundar o que quer que seja, sejam os problemas pessoais dos miúdos que retrata, sejam os de toda uma comunidade afundada nos lugares comuns de uma condição suburbana de pobreza e desemprego.
Tudo o que se viu é muito pouco para um filme que não só não devia estar na competição à Palma de Ouro como dificilmente poderia marcar espaço na seleção oficial além de uma sessão especial.




















