The Fight for Greenland: o ‘beat’ político da independência para a Gronelândia

(Fotos: Divulgação)

Em virtude da crise global do COVID19, o CPH: DOX decidiu lançar sua edição 2020 numa versão digital. Uma edição que o C7nema está a seguir com particular atenção

Seja onde for, o rap tem sido utilizado como uma verdadeira potência (já diziam os Líderes da Nova Mensagem nos anos 90 em Portugal). Estilo musical de denúncia, seja para os afro-americanos mostrarem a discriminação e a violência policial nos bairros de L.A, seja para os brasileiros alegoricamente matarem presidentes [Tô Feliz (Matei o presidente), Gabriel Pensador], seja para palestinos denunciarem o regime de apartheid que vivem sob as garras de Israel (veja-se Slingshot Hip Hop, 2008), as rimas e poesias têm sido um veículo prioritário global para o protesto, para lutas de emancipação, liberdade e independência.

E é isso que assistimos nas frias paragens da Gronelândia, território dominado há séculos pela Dinamarca, mas que encontra nos dias que correm um sentimento independentista, aqui apresentado inicialmente através de um rapper chamado Josef, que através das suas palavras e beats nos vai mostrando os problemas do território e a urgência na sua libertação do Reino da Dinamarca. Alcoolismo, suicídio e falta de identidade são chaves e o motor do movimento independentista, o centro nevrálgico da atenção do veterano diretor de fotografia transformado em realizador Kenneth Sorento, que no documentário The Fight for Greenland executa uma radiografia ao pensamento independentista no território através de algumas pessoas que ativamente – seja através da música, seja através da política – buscam a independência, com maior ou menor corte na ligação com o colonizador.

Movido através de entrevistas diretas, diários de campanha eleitoral, e histórias pessoais regadas de tragédias sociais, o documentário move-se frequentemente por um território ideologicamente fraccionado, que não só é pretendido pelo seu atual proprietário (a Dinamarca), mas ambicionado por outras nações poderosas, como a China e os EUA, que encaram a Gronelândia como porta para o Ártico. Sim, os desejos recentes de Donald Trump em comprar a nação estão também presentes, mas esbarram não só numa Dinamarca indisponível para perder a sua influência, como nos cidadãos locais, divididos entre ser realmente uma nação independente e permanecer ligados aos dinamarqueses.

The Fight for Greenland é um exercício curioso e perspicaz que nos apresenta uma realidade que apesar de ser bem aqui na Europa, está afastada da nossa atenção e preocupação, isto curiosamente em tempos em que se fala do colonialismo como algo pretérito que temos de confrontar (e descolonizar mentalmente), mas que nunca é assediado como um processo ainda em movimento “nas nossas barbas”.

E só pelo lembrar ao mundo que o colonialismo subsiste, bem à nossa porta, The Fight for Greenland merece uma atenção especial.

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