Quando ouvirem da próxima vez o provérbio “um mal nunca vem só” podem pensar nesta sequela – escusada e repetitiva – de ‘O Guarda-Costas e o Assassino’, filme que tal como o primeiro encontra na persona de Ryan Reynolds o seu lado totó; em Samuel L. Jackson a “pinta” de dizer uma dúzia de vezes “motherfucker”; e em Salma Hayek a “badass” do costume com decote saliente (a ser tema de conversa por ela mesma) a disparar palavrões e a matar mauzões em catadupa.
Tudo isto, não é nada que não antecipassemos, ou seja, o regresso da franquia ao que tem de interessante, os atores e as personagens moldadas às suas personagens típicas cinematográficas, mas nada nos preparou para um Antonio Banderas, também ele cheio de taras & manias & clichês, a fazer de um grego milionário (um “Liberace das cortinas”) que farto da austeridade imposta pela União Europeia decide responder com ataques, caos e mortos.
A história é tão bizarra e desesperada na busca de comicidade e ação que poderíamos estar perante um objeto hiperbólico com estilo e identidade, algo “tão mau que é bom” que cria filmes de cultos, mas a verdade é que nada funciona aqui além dos atores a debitarem as suas coleções pessoais de performances e piadas.
Na verdade, a repetição (dos tiros, palavrões, cenas de pseudo-sexo entre Samuel L. Jackson e Salma Hayek) e a fraqueza rasca do humor é tanta que o único sentimento que ressalta em nós é o mais profundo aborrecimento e estupefação com a falta de qualidade generalizada, salvando-se apenas desta maleita todos aqueles que são fanáticos pelos atores, os quais terão noção ainda assim que já viram isto tudo noutro sítio e melhor.
Há também um ponto que queria referir em relação à fita, que é o facto dos chamados filmes “Rated R” se terem transformado num mercado de “conteúdos” por si só, especialmente depois do “Deadpool” de Reynolds ter sucesso nas bilheteiras. O filme vende-se, através do marketing e argumento, como para maiores de 16 anos, especialmente exagerando no palavreado, mas o tipo de humor está tão orientado para um público menos exigente (com expressões usadas como “cara de pila de burro”) que dificilmente alguém com um bocadinho de mais maturidade consegue extrair daqui o entretenimento escapista que procura.
Não gosto de me repetir, mas aconselho a leitura do texto que recentemente escrevi sobre “Chaos Walking”, no qual abordo a salvação das salas de cinema, do cinema em si, frisando a fraqueza permanente do catálogo da Lionsgate para esta guerra.
Com ‘O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino’, a empresa – que muitos acreditavam que poderia abanar o sistema dos grandes estúdios norte-americanos depois dos grandes sucessos de “Twilight” e “Hunger Games”, mostra que vai de mal a pior, sendo este um novo registo olímpico de lixo no grande ecrã.Deixa apenas um último parágrafo reservado para mais uma exceção. Vou citar uma frase dita sobre o filme por Cary Darling do Houston Chronicle: “If there’s one film that could make you wish that all theaters had not only stayed shuttered after the pandemic but burned down, it’s “The Hitman’s Wife’s Bodyguard.” (Se há um filme que poderia fazer você desejar que todos os cinemas não só tivessem permanecido fechados após a pandemia, mas ardessem, ele é “‘O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino’“.) Nem mais, nem menos…















