Difícil, à partida, entender como um filme como “Chaos Walking”, munido de três protagonistas com carisma no mercado (Tom Holland, Daisy Ridley e Mads Mikkelsen), um realizador de créditos firmados na construção de ação e tensão (Doug Liman – responsável por “Identidade Desconhecida” e “Mr. e Mrs. Smith”), uma história sci-fi enigmática e bons meios de produção para a levar ao grande ecrã, falha em tão larga escala na sua transposição para o cinema, assumindo-se acima de tudo como um produto nada convincente, estranhamente carente de empatia, e essencialmente previsível em todas as direções.
Talvez a explicação esteja no desencanto generalizado imprimido no tom, com clara tendência para a simplificação, seja no drama, na exploração nunca convincente de um mundo regido por homens que é confrontado pela chegada de uma mulher, seja na desenvoltura e energia das sequências de ação, essencialmente genéricas e aborrecidas, ou na tentativa forçada de criar romantismo (Daisy Ridley e Tom Holland nunca têm verdadeira química).
A verdade é que há anos, desde que conseguiu dois sucessos estrondosos no universo das adaptações de obras literárias destinadas a jovens adultos (Twilight* e Hunger Games) que a Lionsgate procura o seu novo Midas (a saga Divergente foi outro investimento), mas o “tanto querer” fez com que sucessivos projetos, sempre a passear em terreno da fantasia (distópica ou não), esbarrassem na realidade de serem meras fórmulas que repetem formas em conteúdos distintos. É como se constantemente o estúdio achasse que qualquer profundidade retirasse interesse ou desejo ao público jovem (como que dizendo que estes são burros ou limitados), oferecendo assim apenas esboços e nunca objetos finais polidos com coração, alma e cérebro, capazes de lidar com os temas que abordam além da superficialidade.

A base aqui é uma trilogia literária que aponta a um Universo onde a Humanidade se viu forçada a abandonar a Terra e a colonizar um novo planeta, local onde os homens dominam, mas têm os seus pensamentos audíveis, originando um ruído constante de emoções. Quando Viola chega a esse planeta, ela é a primeira mulher que Todd alguma vez viu, e com o poder local, liderado pela personagem interpretada por Mads Mikkelsen, em perseguição à mulher, Todd transforma na sua missão de vida protegê-la do perigo.
A ausência de química, já referida acima, na dinâmica do casal protagonista, é logo meio caminho andado para o desastre, mesmo que os atores se esforcem, dentro das limitações do guião, em nos convencer do contrário. Se antigamente a cultura das “damas em perigo”, salvas por heróis intrépidos e aventureiros, era o pão nosso de cada dia, agora outra fórmula vigora repetidamente, dando ao espectador apenas e só mais do mesmo: ele é um tímido e reservado que irá provar o seu valor; ela uma destemida que lida com o perigo de caras. A interação dos dois é minada por sucessivas tropelias de Todd em tentar demonstrar afeto por ela, mas a sua forma de ser desengonçada não consegue entregar mais do que qualquer “teen movie” corriqueiro o faz de olhos fechados .
Depois, a ação assenta essencialmente em perseguições por um espaço onde outras criaturas fantasiosas revelam-se e embelezam os quadros fílmicos, mas nunca acrescentam nada de concreto em termos dramáticos e com real impacto na ação. E finalmente, temos o “mau que é mau”, mas um ainda pior que tenta controlar tudo e todos.
O resultado final é um verdadeiro caos e ruído dramático, com o espectador, ainda bem antes do final, a desinteressar-se por tudo, pois sabe perfeitamente que o desejo por uma nova franquia é tanto que nada de verdadeiramente arrojado ou surpreendente irá acontecer.
Num ano em que se apregoa (e muito bem) que devemos salvar o cinema, o melhor que podia ter acontecido era “Chaos Walking” ter sido lançado no streaming, pois o seu carácter de equação para vingar no box-office apenas demonstra que se a 7ª arte continuar a ser regida a matemática e a algoritmos do “gosto geral”, apenas vai produzir objetos simplistas com a porta fechada a qualquer surpresa, arrojo e profundidade.
*projeto da Summit, que se fundiu (foi absorvida) pela Lionsgate















