Presente no Festival de Cannes, o filme-catástrofe francês “Acide” (Ácido), um dos exemplos modernos do chamado ecoterror, deu que falar por mostrar um mundo à beira da extinção devido à queda de chuva ácida, a qual corrói progressivamente qualquer material com que entre em contacto.
A liderar o elenco deste filme de Just Philippot, que deu assim uma nova vida à sua curta-metragem homónima de 2019, encontramos o famoso ator (e realizador) Guillaume Canet, o qual já vimos este ano nas salas em “Astérix & Obélix: O Império do Meio“.
“Não penso em fazer este ou aquele papel porque isso vai-me dar isto ou aquilo. As minhas escolhas vêm sempre do que sinto quando leio um guião“, explicou-nos Guillaume Canet em Cannes. “Neste caso, queria trabalhar com o Just Philippot. Gostei muito do seu “La nuée” e fiquei interessado em trabalhar com ele. Quando ele me contactou para atuar no “Ácido”, senti que havia no filme uma intensidade que já sentira no “La nuée”. Para mim, também era importante falar deste tema ambiental. Creio que através do cinema conseguimos passar mensagens importantes sem soar a um professor que está ali a dar lições.“
Apesar de liderar o elenco de “Ácido“, e de ter – naturalmente – um tom heroico na sua personagem, existe nela um sentimento de raiva social que se manifesta de forma violenta logo no início da obra, quando a sua personagem espanca um polícia numa reivindicação laboral. “A minha personagem fez-me lembrar aquele pugilista que agrediu um policia numa manifestação de forma muito violenta. Quando li o guião questionei-me do que terá acontecido para essa pessoa ser tão violenta e a ter tanta raiva. É isso que acho interessante no trabalho de ator, o tentar entender as personagens. Neste caso, queria entender o sentido de injustiça que o leva a agir assim“.
Interessado nas questões ambientais que preocupam o globo, Canet lança a debate o seu maior medo. “Uma das coisas que me provoca mais ansiedade atualmente é ver o que os meus filhos comem. Estou muito focado nisso, até porque tenho lutado bastante pela agricultura na França, que está a desaparecer.”, explica Canet, que em 2019 protagonizou um filme sobre o tema, ‘Au nom de la terre“: “Todos os dias há um agricultor francês que se suicida. Todas as semanas, desaparecem 200 quintas. Estou assustadíssimo, pois em França importamos produtos de todo o lado com bastante má qualidade, repletos de químicos, derivado da sua produção em massa. Assusto-me pelos meus filhos que só querem comer produtos processados, ou coisas com açúcar.”

Sobre a crise climática, que é o motor da catástrofe que vemos em “Ácido“, o francês comentou: “A situação climática é muito assustadora e tento, em casa, alertar bastante para estes temas. O mundo não é suficientemente maduro para entender o perigo do aquecimento global. É preciso educação, mas quando és pobre é ainda mais difícil alertar para isso. Quando eles vivem na pobreza e tentas explicar que a garrafa de plástico que estão a usar é catastrófica, obviamente que não vão ter nisso uma prioridade. Temos de fazer entender as grandes empresas industriais que com o dinheiro que ganham têm de fazer mudanças na produção. Mas sim, é o desejo de fazer dinheiro que move estas empresas. Tenho, ainda assim esperança no futuro, pois a humanidade tem um poder destruidor, mas também de reconstrução e reparação. Quero manter-me positivo e desejar que se façam mais filmes como este, que servem de alerta ”.
“Ácido” estreia em Portugal a 23 de novembro.

