
A expectativa é muita em torno deste ‘remake’ do clássico do terror dos anos 80. Especialmente em relação à reinvenção da personagem de Freddy Krueger, provavelmente o monstro mais marcante do cinema de terror contemporâneo.
O actor-sensação de “Watchmen”, Jackie Earle Haley, vai ser o primeiro a interpretar o vilão depois do mítico Robert Englund (que o fez por oito vezes). E as primeiras imagens denunciaram logo um Freddy diferente do que vimos nas sequelas mais recentes: Haley é baixo e franzino, a sua voz é profunda – e pouco dada a humor – e a maquilhagem de queimado e desfigurado, que esta reinvenção apresenta, é mais realista do que a do monstro original.

A história
Nancy e os seus amigos andam a ser assombrados nos sonhos por um homem misterioso de rosto queimado e uma luva com facas. Os seus pesadelos são cada vez mais vividos, com as feridas que sofrem enquanto dormem a materializarem-se nos seus corpos.
Quando um dos seus amigos morre violentamente durante o sono, Nancy depressa percebe que não pode voltar a dormir sob o risco de não voltar a acordar e que terá que desvendar a identidade do homem que os assombra para poder descobrir como sobreviver.
Na sua investigação descobre que os seus pais e os pais dos seus amigos haviam queimado vivo um homem num acto de vigilantismo. O seu nome era Freddy Krueger .

O Projecto
Há já muitos anos que a Platinum Dunes tinha os direitos de “A Nightmare on Elm Street” e por isso era apenas uma questão de tempo até chegar a vez de Freddy Krueger ser renascido pela empresa de Michael Bay (realizador de “Transformers” e muito criticado produtor dos ‘remakes’ de “Texas Chainsaw Massacre”, “The Amityville Horror” e “Friday the 13th”). A confirmação veio em Janeiro de 2008, quando a nova versão foi anunciada.
O responsável pelo projecto, Brad Fuller, explicou que Freddy foi deixado para mais tarde porque era uma personagem muito complexa e densa e que, de certa forma, os ‘remakes’ anteriores tinham sido um teste para o de “A Nightmare on Elm Street”. A política foi de apostar nos fortes do filme original e das sequelas e excluir os pontos mais fracos. A prioridade era criar um filme verdadeiramente assustador. Por tal, o novo Freddy falaria muito menos que do que nas sequelas e o seu tom cómico seria reduzido a um mero sarcasmo sádico.
Relativamente ao projecto, as reacções foram mistas: alguns fãs adoraram a ideia de voltar a ver Freddy no grande ecrã, enquanto outros aceitaram mal a ideia de outro actor que não Robert Englund pegar na personagem.
Os dois principais responsáveis pelo filme original também tiveram pontos de vista dispares. Wes Craven considerou que o ‘remake’ foi apressado na concepção e disse ter ficado desagradado com o facto de não ser consultor do projecto (como aconteceu no ‘remake’ do seu “The Last House on the Left”). Já o actor Robert Englund, o Freddy original, ficou contente com a nova abordagem dizendo que um Freddy com um novo actor e o beneficio de mortes com CGI poderia ser muito interessante.
Samuel Bayer foi a primeira e única escolha dos produtores, e chegou a recusar fazer o filme das primeiras vezes que lhe foi oferecido o projecto. Bayer nunca havia realizado em cinema e por isso receava estrear-se dentro do género do terror. Ele é um dos mais reputados realizadores de videoclips dos EUA, tendo assinado“Smells Like Teen Spirit” dos Nirvana e “Boulevard of Broken Dreams” dos Green Day. Para Brad Fuller era importante que o realizador fosse alguém com um forte sentido estético para fazer justiça ao mundo de pesadelos de “Nightmare on Elm Street”.

O Novo Freddy
Só um ano depois do inicio do projecto é que foi tornado público que Robert Englund não iria ser o actor do ‘remake’, apesar da pressão de muitos fãs neste sentido. Os rumores apontavam para Billy Bob Thornton – mas a realidade é que o actor de “Sling Blade” nunca foi uma hipótese para o estúdio. O preferido desde o início sempre foi Jackie Earle Haley (o Rorschach de “Watchmen”) muito graças à sua performance como um inquietante homem saído a prisão após acusações de pedofilia no perturbador “Little Children”.
Robert Englund também gostou da escolha de actor, para ele Earle Haley é um homem pequeno e com uma postura ameaçadora e que personificaria perfeitamente a sua visão do vilão: “Freddy é como um cão raivoso que morde a nossa anca a não larga”.
Forçando mais o tom sério e negro da personagem, a maquilhagem de Freddy na versão 2010 é radicalmente diferente do que havia sido feito antes. Se no original, Freddy era fortemente desfigurado e queimado de forma exagerada, em algumas sequelas ele parecia mais um demónio. Para o novo Freddy a equipa de produção contratou peritos em queimaduras para ter um Freddy mais humano: o seu rosto não deveria ser um escape para a fantasia, mas sim o mais real possível.
Para o papel de Nancy Thompson a escolha foi Rooney Mara, uma actriz que já participoiu no drama “Dare” e em “Youth in Revolt” (curiosamente, estreia em Portugal no mesmo dia que “Nightmare”).
Os dois actores assinaram por 3 filmes na expectativa que a saga continue como um duelo entre a heroína e o vilão, nas linhas a trilogia “Scream”.

Expectativa
Desde a primeira apresentação do filme no Comic Con de San Diego, no Verão passado, que os fãs do cinema de terror tem estado em pulgas para ver o novo Freddy Krueger. As reacções aos diversos ‘trailers’ têm-se dividido: uns consideram que o novo Freddy é contemporâneo e assustador, mas outros consideram que o seu novo ‘look’ se afasta demasiado do espírito original. Outras queixas vieram em torno da voz: Haley tem uma voz muito característica e as deixas do novo Freddy fazem lembrar o seu Rorschach de “Watchmen”.
No entanto, logo do primeiro trailer ficou uma frase emblemática, tipicamente no espírito do original: “Why are you screaming, I haven’t even cut you yet!” (“Porque gritas, ainda não te comecei a cortar!”), uma deixa que recupera o Freddy mais sádico e que já entrou para as favoritas dos fãs. O marketing do filme tem apostado forte no visual novo do vilão, mas também em estratégias mais revivalistas. Freddy interrompeu anúncios da MTV (como nos anos 80) e os ‘posters’ do filme tem sido maioritariamente ‘retro’.
A recepção
“A Nightmare on Elm Street 2010” foi algo mal recebido pelos fãs, pelo público e pela crítica.
No box Office americano, o regresso de Freddy Krueger conquistou 32.9 milhões de dólares no seu fim-de-semana de abertura ficando à frente de “Halloween de Rob Zombie” ou “The Amityville Horror de 2005”, mas atrás das novas versões de “Friday the 13th”, “The Texas Chainsaw Massacre” e inclusive de “Freddy vs. Jason” (quando ajustado à inflacção). Isto irritou muitos fãs de Krueger, pois contavam que ele triunfasse sobre o regresso de Jason Vorhees (que rondou os $40.6 milhões).
A conclusão tirada foi que uma nova versão de “Nightmare” era mais difícil de vender que a adaptação de um filme de terror com um vilão silencioso e mascarado. Muitos fãs rejeitaram ver Freddy interpretado por outro actor, e muito do público não familiarizado com a série fico apreensivo com o tom negro e pouco cómico da nova versão.
A crítica arrasou o filme, procedimento habitual para um filme deste género. O agregador Rotten Tomatoes revela que só 14% dos críticos americanos gostaram do filme. No entanto, os comentários dos profissionais têm sido muito semelhantes aos dos entusiastas da série.
Por um lado, Haley apanha muito bem a essência da personagem e é um Freddy bem conseguido: tem uma boa presença e distancia-se da versão de Robert Englund. O actor foi bastante elogiado, havendo muitos que disseram que ele era bom demais para o filme em questão.
No entanto, a mudança de tom tem sido controversa. Alguns gostariam de um Freddy mais negro e um filme mais pesado, considerando que todo o novo “setup” do filme é arrepiante. Mas a maioria considerou que o desaparecimento do lado cómico de Freddy diminuiu a personagem e o relato. No novo filme seguimos Krueger antes de ser queimado, introduzindo um lado humano e frágil a personagem. Ao mesmo tempo, o filme esclarece melhor porque os pais de Elm Street o haviam queimado: ele era um pedófilo homicida. Isto estava implícito na série original, mas nunca havido sido esclarecido. A introdução deste tema pesado estragou, para muitos, a dualidade da personagem e do filme original. Freddy perdeu carisma.
Considerando esta mudança abrupta de tom, a parte do filme mais fiel ao original ficou para muitos sem grande sentido. A nova versão repete algumas cenas inteiras de terror do original (uma decisão estranha pois a maioria destes ‘remakes’ de terror recentes evitou refazer as cenas de terror dos originais) e apresenta uma sucessão de sustos fáceis e terror ligeiro que não encaixa num filme tão mais negro e pesado que o original.

Freddy regressará em 3d
Apesar das críticas, o filme conseguiu em 3 dias já ultrapassar os custos (uns 27 milhões) e os fãs da série ficaram com a ideia que o Freddy de Haley poderia ser muito interessante num filme melhor.
Por tal, Brad Fuller já anunciou que haverá um segundo filme (Haley havia assinado por 3 filmes) e que será em 3d. Uma curiosidade: o sexto filme da série, “Freddy’s Dead” foi exibido em 1992 com os últimos 15 minutos no 3d tradicional do verde e vermelho. Por tal, será um regresso ao 3d para Freddy Krueger.
O realizador Samuel Bayer não irá regressar. Os fãs criticaram-no muito e ele chegou inclusive a responder com desagrado dizendo que o seu filme foi julgado antes de visto pelos entusiastas da série.
“A Nightmare on Elm Street” estreia em Portugal dia 20 de Maio de 2010.
José Pedro Lopes

