Snyder’s Cut: Um espetáculo cinemático sintonizado com a mitologia da DC

"Liga da Justiça, de Zack Snyder" pode ser visto na HBO

(Fotos: Divulgação)

Bebem-se litros de chá no esperadíssimo Snyder’s Cut da “Liga da Justiça”, em cenas que aquecem a fogo brando uma narrativa que corre por quatro horas a ferver, ininterruptamente, ou quase, em altíssimas temperaturas, mesmo nos momentos de melodrama, rearranjando o que havia sido exibido em 2017 numa estrutura radicalmente nova, tensa, viva – e autoral. Se já leram alguma BD da DC Comics, em especial as editadas entre os anos 1980 e 90, como “Lendas”, de John Byrne, não vão apenas sentir-se em casa, como vão testemunhar o respeito absoluto de um autor a uma mitologia do universo pop.

Se vocês não são DCnautas ou não têm qualquer conexão com histórias aos quadradinhos, a impressão vai ser a de estar diante de um épico, um dos mais possantes na “epicização” (no registo no ethos formativo) de uma fantasia que não vive nem do reino dos deuses, nem no reino da magia, misturando metafísica ao caos do dia a dia. Trata-se de um espetáculo cinemático – graças à fotografia de Fabian Wagner, nas suas cores saturadas enos seus enquadramentos de vertigem – e poético, que redesenha tudo o que já se viu, livrando-se das amarras da expectativa e do cabresto das comparações. Nada se requenta aqui, pois Zachary Edward Snyder procurou tudo aquilo que não fora usado, além de trazer imagens com zero Km. Há uma perseguição do Batmóvel a criaturas aladas chamadas de parademónios que é para entrar na História do filão super-heróico, pelo dinamismo vetorial da sua maneira de retratar combates motorizados – uma coisa digna de “Bullit” (1968). Mas há algo mais, no ritual de Snyder em abrir mão da sua própria assinatura, ainda que parcialmente.

Saído de videoclipes de Rod Stewart, Morrissey e My Chemical Romance, Snyder criou uma série de marcas pessoais na sua realização, não apenas no ritmo acelerado dos seu planos e na sua aposta em tons ocre (vermelhos e marrons) em situações mais passionais e trágicas. Mas a marca mais pessoal da sua “escrita fílmica” está no seu niilismo inato. Desde o seu filme de culto sobre zombies, “Dawn of the Dead” (2004), fez-se notar como uma espécie de profeta da lógica niilista em Hollywood. Os seus filmes refutam finais felizes e contestam a soberania da Bondade nas narrativas, pois cada the end filmado por si carrega uma centelha de desesperança, uma perceção de que herói é aquele que precisa ser imolado, o Cordeiro de Deus a sangrar pelo pecado do Homem e pela vaidade dos Titãs.

Foi assim em “300” (2007), com cabeças a rolarem pelas Termópilas; era esse o destino de Roschach em “Watchmen” (2009); deu-se o mesmo com as corujas falantes de “A Lenda dos Guardiões” (2010); e com as internadas no manicómio de “Sucker Punch” (2011). Nem Kal-El livrou-se de ter de sujar as mãos em “Homem de Aço” (2013). Lá, longe da égide paladina do “Superman” de Richard Donner, o bom moço máximo das BDs foi forçado a matar para salvar-nos da fúria do seu algoz, Zod. Não por acaso, no meio de “Batman Vs. Superman” (2016), Kal-El profetiza: “Nem tudo permanece bom!”. Tem razão: na América sobre a qual Snyder fala, as virtudes do altruísmo viraram tão irreais e impalpáveis como os comics. Não por acaso ele cita, ali, frontalmente, as histórias de John Byrne, o artista gráfico canadiano que desconstruiu o Super-Homem nos anos 1980, humanizando-o na esfera do desejo e da fraqueza moral: os mitos existem para serem quebrados e mais tarde refeitos como lendas.

É por isso que (cada vez mais) precisamos delas: para ver o esboço da civilização que nos tornamos e nos distanciar desse rascunho. É hora da arte-final. Não por acaso, na forma, a longa-metragem que Snyder redefiniu é tão bem acabada no seu parque de efeitos especiais, com um realismo que sustenta criaturas apocalípticas e invasões de dimensões paralelas, com Easter Eggs que achocolatam a boca dos fãs. É um processo que parte de uma dolorosa experiência de luto. Em 2017, a sua filha Autumn suicidou-se, aos 20 anos, abalando-o na véspera de fechar “Liga da Justiça”, o que levou a Warner a contratar Joss Whedon para terminar o filme por ele.

Liga da Justiça

O que foi parar aos ecrãs não agradou aos espectadores, rendendo menos do que se esperava. Com uma bilheteira estimada em 657,9 milhões de dólares, o filme original enfrentou mudanças no guião e uma mudança brusca de liderança depois de Snyder precisar afastar-se. Mas ele nunca ficou satisfeito com o que foi para as salas e resolveu rever todo o material. Mas, para retomar para si esse material que Joss Whedon descaracterizou, o responsável por “300” precisou romper com o seu próprio catastrofismo e fazer a crença na redenção vingar. Existe, no trecho final do seu colossal “Zack Snyder’s Justice League” – após três horas e 40 de reviravoltas – um ensejo dramatúrgico de colapso civilizatório, quase como uma coda. Algo que os leitores de BDs chamam de “what if...”, literalmente “o que aconteceria se…”, numa espécie de dimensão alternativa hipotética, com direito a (mais uma) evidência de que Jared Leto (de volta ao posto de Joker) é um gigante. Mas tal circunstância é um afluente possível, não certeiro, para futura continuações, embora esteja em total conexão com toda a tradição da DC Comics. Na linha narrativa corrente, tudo parece encaminhar-se a uma solução redentora, de esperança. Mas à maneira Snyder…

Filmes de super-heróis, sustentáculo da economia cinematográfica, são, por essência, épicos de autossacrifício: existem cordeiros que se oferecem à imolação em prol da Humanidade. Não existe humor na espinha dorsal desse gesto. Pode haver gargalhadas como apêndice, como efeito de oxigenação da tensão, como um respiro para o que há de bruto na peleja do sacrificado contra a moléstia moral que o leva a se arriscar em prol de quem precisa de auxílio. Pode e deve, pois o riso é um convite ao carisma. Mas esse riso não pode sobrepor a essência das narrativas super-heróicas, cuja génese vem da ação, da aventura, da adrenalina e não da troça. Existem histórias de quadradinhos para rir e outras de super-heróis. É assim desde as primeiras viagens galácticas de Buck Rogers, em janeiro de 1929: a pedra fundamental pop do filão. Snyder entende isso como ninguém.

Liga da Justiça

Nesta era fantasiada pop, em que as BDs tornaram-se o combustível da indústria audiovisual do entretenimento, oferecendo à dramaturgia um formato inusitado e renovador (o de saga), o febril “Liga da Justiça” é um balão de oxigénio para a fantasia, que põe em xeque o desamparo moral, as desavenças de pontos de vista e o culto ao ódio. É uma aventura perfumada a adrenalina, de tónus bem-humorado, mas aberta a debates éticos, cujo intuito é celebrar a comunhão como alternativa à submissão e à derrota. Snyder equilibra riso (no Flash de Ezra Miller), ação, reflexão, mitologia e o timbre sombrio (mais adulto) típico da tradição DC Comics nos ecrãs, veja-se “Constantine” (2005) ou a trilogia “Batman” (2005-2008-2012) de Christopher Nolan, sem contar “Joker” (Leão de Ouro de 2019). Entre a alegoria política e o Flíper, numa narrativa adulta sombria, sem medo de sangue, o filme faz jus à confiança que os estúdios Warner depositaram sobre os ombros de Ben Affleck ao confiar ao galã o manto do Homem-Morcego. O seu desempenho é irretocável, trazendo um Batman pós-trauma, zangado e sem esperanças, menos existencialista do que o de Christian Bale. O próximo da fila é Robert Pattinson, um ator de perseverança monumental. Mas o Batman dele só deverá ser visto em 2022.

Há filmes de super-heróis que se propõem a serem metáforas secas sobre as nossas carências políticas: casos de Nolan ou de “Logan”, de James Mangold. Mas há títulos que optam pelo desbundar: “Guardiões da Galáxia”, “Deadpool”, “Esquadrão Suicida”. Na versão de 2017, existia a união do melhor dos dois mundos – graças sobretudo ao show de carisma de Ezra e do Aquaman de Jason Momoa -, estabelecendo-se como um debate vivido sobre a falta de pertença. Havia um cheirinho de Wim Wenders no que há por trás das cenas de batalha magistralmente fotografadas por Fabian Wagner (da série “Game of Thrones”). Essa reflexão foi-se embora: a “Liga” do Snyder’s Cut é mais sintonizada com a questão do companheirismo, da necessidade de conexão, da parceria, do “sentimento de grupo” e do trabalho em equipa num período histórico de pleno individualismo. Talvez por transitar entre os signos do autossacrifício consciente, Snyder esculpe, nesta nova edição, uma alegria menos desesperançada da condição humana. Talvez o faça como sintoma da tragédia pessoal (a perda da filha, a quem dedica o filme). Não cabe julgá-lo. Cabe entendê-lo e comemorar esse sopro de leveza que traz a sua assinatura no “cut” definitivo do projeto.

Na sua nova trama, ambientada num mundo em luto pela morte do Super-Homem, reside a centelha niilista snyderiana por excelência: há três objetos na Terra, chamados de Caixas Maternas (ou Mother Boxes), que congregam em si um coeficiente de energia raro. Uma ficou na Atlântica de Aquaman, outra na Themyscira da Mulher-Maravilha e a terceira foi dada à raça humana, cuja falibilidade garante zero segurança a um bem tão precioso, cujo núcleo energético pode levar-nos à extinção se cair nas mão erradas. Tal premissa é uma clara conexão com a figura de Darkseid, um dos maiores vilões da DC, antes apenas citado e, agora, apresentado em toda a sua ruindade. O ator Ray Porter é quem dá voz à criatura, capaz de deixar o Thannos da Marvel atrás. É a ele e aos seus irmãos algozes, os Novos Deuses do Quarto Mundo, que as caixas pertencem. Quem sai à caça delas, em nome de Darkseid, é o Lobo das Estepes, um guerreiro (com a voz de Ciarán Hinds) dotado de superforça, armado com um machado energético, que faz marchar, sob as suas ordens, uma horda alada de modelos robóticos, similares a libélulas. Os tais robôs (ou quase isso) já apareceram nos pesadelos de Bruce Wayne (de novo confiado a Ben Affleck, agora mais solto e nada sisudo) no (brilhante) “Batman v Superman: Dawn of Justice”. Aqui dá para entender porque ele sonhava com as criaturas e porque esses pesadelos fizeram com que o cruzado de Gotham City reunisse uma tropa de vigilantes, incluindo a amazona, o rei dos oceanos e mais dois: o velocista Flash e um ex-atleta cujo corpo é meio máquina, meio pessoa: Cyborg. Este é interpretado por Ray Fisher, cuja atuação é a melhor de todo o elenco. Já assim o era na versão de 2017 e ficou ainda mais potente agora.

Temos personagens tridimensionais e uma trama que reverencia todo o legado da DC. Temos um realizador no seu apogeu. Temos um filme cheio de graça. Snyder reinventa-se e leva-nos a um mergulho pela histeria de um conquistador (Darkseid) plenamente sintonizado com os fascistas da contemporaneidade. Que os heróis da ficção nos iluminem contra a sua nocividade. Up, Up and Away! 

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