Fomos dançar com Les Blank no SXSW Online 2021

(Fotos: Divulgação)

Vive la différence! Louisiana is Different. Ici on parle Français”. É com esta mensagem num outdoor que abre “Spend It All”, filme de Les Blank de 1972 que acompanha de perto o povo Cajun, um grupo étnico “descendente dos colonos que formaram a primeira colónia francesa na América do Norte em 1604, numa região do Canadá, agora conhecida como Nova Escócia“. 

Como explica o documentário logo a abrir, os acadianos viveram pacificamente uma vida pastoral durante 150 anos até que os ingleses ganharam controlo da região e exigiram aos habitantes que, ou renunciavam à fé católica e pegavam em armas contra os inimigos” da Coroa, ou perdiam a terra e seriam expulsos. Os acadianos recusaram lutar e os ingleses enviaram todos os homens potencialmente rebeldes para fora do território e, mais tarde, iniciaram um processo de dispersão dos restantes 8 mil. Metade deles morreu no mar e a outra metade foi enviada para colónias americanas entre Boston e a Geórgia. Mal recebidos, partiram para o Louisiana, onde encontraram aceitação entre os franceses e espanhóis, posicionando-se numa região entre Nova Orleães e o Texas. Com terras ricas e abundância de alimentos (principalmente peixes), aí viveram durante 200 anos praticamente isolados. Escravos em fuga, piratas e alguns anglo-saxónicos foram bem-vindos, e com o passar dos anos adotaram a língua e o seu modo de vida. Apesar da influência que novas estradas, a TV e a descoberta de petróleo na região, ainda permanece no local a cultura única dos acadianos, agora chamados “Cajun” (uma corruptela inglesa do francês acadien). 

Falecido em 2013, aos 77 anos, o cineasta norte-americano Les Blank foi, como a Criterion o descreveu: “intransigentemente independente (…) desaparecendo elegantemente com a sua câmara em locais culturais raramente vistos na tela – principalmente nas periferias dos Estados Unidos”. É que embora tenha tido como maior sucesso “Burden Of Dreams”, sobre a realização do clássico e super problemático “Fitzcarraldo” de Werner Herzog, ou tenha filmado ainda um dos maiores fait-divers da sétima arte, “Werner Herzog Eats His Shoe”, que como o nome diz mostra o alemão a comer um sapato como pagamento pela promessa de Errol Morris ter concluído “Gates of Heaven”, Les Blank fez das regiões periféricas dos EUA, como a zona do Bayou no Louisiana, o local onde frequentemente filmou trabalhos de cunho marcadamente etnográfico, explorando a música, a gastronomia e o modo de vida das populações. São exemplos disso o já citado “Spend It All” (1972), mas também “Dry Wood” (1973), “Hot Pepper” (1973), “Yum, Yum, Yum! A Taste of Cajun and Creole Cooking” (1990) e “J’ai Été Au Bal / I Went to the Dance” (1989), que foi agora restaurado numa versão 5K, exibida em estreia mundial no SXSW Online 2021. 

Quando estava a fazer o “Spend It All”, a minha intenção original era fazer um filme abrangente de toda a cultura de lá que fala francês e tem essa herança e língua comuns. Quando fui lá com a câmara, com um mínimo de dinheiro e tempo para ficar ali, descobri que os brancos só me convidavam para jantares. (…) O racismo era muito forte naquela época, e realmente não gostavam de brancos a andar com os negros. Isso foi em 1972. Antes que percebesse, tinha gasto todo o meu dinheiro e rodado todos os meus filmes apenas com os brancos. Senti-me mal com isso.


LES BLANK À FOLKSTREAM, LOGO APÓS “DRY WOOD

J’ai Été Au Bal / I Went to the Dance

Antes de existirem conceitos como cinema 4D, sistema que combina uma produção 3-D com efeitos físicos que ocorrem em sincronia com o filme, já Blank  – na apresentação dos seus filmes ao público – cozinhava iguarias para que os espectadores fossem transportados sensorialmente (pelos cheiros) para os registos que apresentava e que iam muito além do cinema observacional verité. Na verdade, a Criterion até denominou o seu trabalho como Cinema Vitalité. Essa vitalidade, alegria e unicidade sente-se a cada 24 frames deste filme, assinado por Blank em conjunto com Chris Strachwitz e Maureen Gosling, onde através da história da música do sudoeste do Louisiana francês, onde o Cajun e Zydeco estão em particular destaque, conhecemos mais uma vez o seu povo.

Por estas alturas, e como Blank mostra, convém aqui ressalvar que a música (tal como a gastronomia e a arquitetura) Cajun não tinha apenas origem na velha Acadia (que descendia da celta), mas já incluía influências crioulas, de escravos livres, que por sua vez traziam consigo a ancestralidade africana. O mesmo se passa com o Zydeco, surgido no início do século XX no sudoeste da Louisiana, misturando blues, rhythm and blues, musica crioula e cajun.

J’ai Été Au Bal” – entre entrevistas, performances musicais, registos fotográficos e o dia a dia dos Cajun- é um verdadeiro trabalho de etnomusicologia, partindo da história dos originários da Acadia e chegando aos Cajun, onde o violinista Dennis McGee (19893-1989) e acordeonista e vocalista crioulo Amédé Ardoin foram moldando um género, onde a também acordeonista Angelas LeJeune e os violinistas Sady Courville (cunhado de McGee) e Ernest Frugé tiveram também grande relevância. É o próprio McGee que nos apresenta alguns traços da sua vida, contando até que já era viúvo de 2 mulheres e tinha 15 filhos, 10 dos quais com a sua esposa atual.

A partir dele seguimos pelas ramificações do seu legado e do de Amédé Ardoin. Cruzamos-nos assim com nomes como Michael Doucet, BeauSoleil, Clifton Chenier, Marc e Ann Savoy, D.L. Menard, Paul Daigle, John Delafose e muitos outros, enquanto observamos a manutenção de uma cultura muito própria que vacilou nos anos 30, com a chegada de novos habitantes com as novas estradas e indústrias, mas que ganhou novo vigor depois da 2ª Guerra Mundial, e uma nova atenção à sua música a partir da explosão de festivais de música, que atraíram a juventude para a criação de novos músicos e bandas.

Uma restauração para o mundo descobrir Les Blank

Presente no SXSW para um painel sobre “J’ai Été Au Bal”, Harrod Blank, que também é realizador e foi produtor desta restauração, falou um pouco do pai e da esperança que tem de que com esta restauração surja um novo interesse nos filmes de Les Blank: “O The Blues Accordin’ to Lightnin’ Hopkins” (1970) literalmente lançou a sua carreira. Naqueles dias, se existisse um filme que ressoasse nas audiências, ele viajaria por todo o mundo. Os únicos sítios que existiam para mostrar estes filmes eram festivais de cinema e algumas salas ‘arthouse’. À medida que os tempos mudaram, a transição para o digital e as mudanças na distribuição tiveram um grande impacto em Les Blank. Ele não entrou no mundo digital. Foi aí que entrei em cena, mas ironicamente sentia-me como um dinossauro, pois fui treinado por ele para trabalhar em película e não digital. Com a ajuda do Anthony Matt conseguimos executar uma resolução com maior qualidade que a gravação do original. 5K, com mais detalhes que aqueles que os olhos conseguem captar. Com a audiência do SXSW, que é global, espero que o filme exponha o trabalho do Les Blank a uma audiência maior e que se interessem por ele. E esta parte da cultura, que é tão importante, parece ser esquecida uma e outra vez. As pessoas não conseguem aceder a estes filmes. Para mim é uma grande honra o SXSW estar a relançar este filme.”

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