Red Taxi: uma boleia anónima aos motins e repressão em Hong Kong

"Red Taxi" foi exibido no SXSW Online

(Fotos: Divulgação)

Em 1997, os britânicos devolveram a colónia de Hong Kong à China, estando estipulado nesse acordo que o território iria manter um alto nível de autonomia até 2047. Porém, em 2019, apenas 22 anos após essa cedência, violentos protestos iniciaram-se na região depois do lançamento de uma lei de extradição colocar em causa a “grande autonomia”. 

Red Taxi” é uma viagem anónima ao território durante esses protestos, onde a bordo de vários táxis – com imagens captadas entre setembro e dezembro de 2019 – vamos assistindo à luta da população contra a lei e a repressão policial, alinhada com o governo chinês. Os rostos dos taxistas que nos guiam por entre o caos estão anonimizados, tal com o nome do realizador desta pequena curta-documental que aterra no SXSW Online 2021 depois de passar pelo aclamado Festival Jihlava, na República Checa.

Deixe-me dizer isto em inglês”, atira o primeiro taxista: “Our government is a Fucking Government. 200% Fucking Government”. A China acha que vai travar os protestos com recurso à polícia, mas “estão bem enganados“, pelo menos segundo a voz deste homem.

As críticas por aqui não se resumem à China, pois alguns falam das problemáticas que qualquer governação traz, com recurso a uma maior ou menor repressão, mas também temos alguém que vai até à génese do problema, falando do colonialismo e sugerindo que o território encontra-se num terreno de fricção, não só entre países, mas dois sistemas políticos distintos. “Quem sofre é o povo“, assegura.

E temos também vozes chinesas, a defenderem que todos estes protestos não passam de uma orquestração dos EUA e que os revoltosos – alegadamente pagos ou vítimas de lavagem cerebral – devem ser tratados forma implacável, num pensamento próximo de: “quanto maior for o tratamento brutal e repressão, melhor”.

A par destes testemunhos, somos confrontados com uma imagem de Hong Kong pouco vista, que foge aos arranha-céus e visita os viadutos, as estradas e os locais mais tradicionais e antigos. E visitamos também Shenzhen, nos limites que separam o território de Hong Kong da China Continental, onde o discurso contra os “traidores” avoluma-se. “Já pensou se agora a China desse a independência às suas 22 províncias?“, questiona-se.

E há também conversas sobre identidade (patriotismo e também nacionalismo) e de como os chineses e os nascidos em Hong Kong são diferentes, havendo mesmo uma voz que diz que na China territorial a natureza das pessoas é de serem “escravas”, submissas ao poder, acreditando em tudo o que lhe dizem para acreditar.

Red Taxi” é uma pequena jóia a descobrir em 2021 e um documento histórico sobre um território com cada vez menos autonomia nas suas decisões e liberdade para protestar.

Últimas